FLAGRANTES DA VIDA REAL

Encantava-me, em jovem, esta rubrica das Selecções do Reader’s Digest. Histórias curtas, dando mesmo a impressão de serem «da vida real» e sempre com um saborzinho bom que nos ficava na boca, dir-se-ia. Permita-se-me que lhe plagie o título.

1
405

Alberto Ramos foi um daqueles amigos do peito que todos gostamos de ter. Antigo aluno salesiano, seguiu a carreira musical, foi professor de História no Ensino Preparatório e aposentou-se como docente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Amiúde meu companheiro de viagem entre Coimbra e a Gare do Oriente, partilhávamos, naturalmente, muitas das peripécias do quotidiano. E ele tinha-as a rodos!

Revoluções

Uma delas contou-ma um dos seus antigos alunos dos primeiros tempos.

O professor entrou na aula, na manhã do 25 de Abril. Nós estávamos excitados. E, creio, até que um pouco medrosos, ao que ele nos tranquilizou:

– É uma revolução! Não estudámos nós já, na História, uma série delas? Há alguma agitação; mas, afinal, tudo se acalma e renova. Vamos, pois, aguardar que tudo se passará bem.

– E nós sossegámos – garantiu-me esse antigo aluno.

Morte

Outra me contou ele, de algum tempo depois do 25 de abril, quando começaram as reivindicações.

Entrou na sala de aula. Era dia de ponto escrito. Apercebeu-se que havia uma frase a giz no quadro. Foi até à secretária, como era seu hábito. Tirou os enunciados. Deu as indicações para o preenchimento dos cabeçalhos. Certificou-se de que todos tinham folhas de ponto. Deu a distribuir os enunciados que policopiara. Não havia dúvidas? Podiam começar!

Como era seu costume em dia de ponto – e sempre, aliás – saiu da secretária e dispôs-se a ir passear pela sala. Silêncio sepulcral. Agora é que ele vai ver! Escrito no quadro estava MORTE AO DR ALBERTO.  Calmamente, Alberto foi até ao quadro. Pegou no giz. Ainda mais sepulcral se fez o silêncio. Todas as esferográficas quietinhas. Entre a palavra MORTE e a palavra AO abriu ele uma chaveta e escreveu: IMEDIATA. Gargalhada geral. De novo, o silêncio. As esferográficas voltaram a escrever.

Olhos de ver cão

Nesse âmbito – e dizia-me que o aprendera na escola salesiana – um outro episódio, este já da Universidade.

Um dos alunos olhava para ele com ar estranho, um tudo-nada provocante. O Alberto não hesitou:

– Não olhes para mim com esses olhos com que olhas prós cães!

E o estudante também não hesitou em replicar:

– Ó doutor, eu para os cães olho com ternura!

– Boa resposta, amigo, boa resposta! Parabéns! – sublinhou assim o Alberto a gargalhada geral.

E a explicação da matéria continuou.

Inês

Ainda nesse contexto de uma atitude especial do docente poder influenciar toda uma vida, positiva ou negativamente, o caso que mais o impressionara, confidenciou-me, foi o de uma senhora sua ex-aluna, já formada, de que ele até já nem se lembrava bem.

Ao encontrá-lo na Baixa de Coimbra, veio saudá-lo com um beijo, identificou-se  e convidou-o para um café. Confidenciou-lhe:

– De certeza que não se lembra de mim. No meu primeiro ano, eu ousei entrar na sua aula a meio. Sentei-me e o professor andava pela sala a explicar a matéria, como costumava fazer. Deve ter reparado em qualquer coisa de estranho, quando eu entrei e depois. O certo é que, ao passar por mim pela segunda vez, me acariciou o cabelo e me segredou: «Não penses nisso! Vai correr tudo bem, acredita!». Tem alguma ideia porque é que eu me atrasara? De facto, apesar do atraso, nesse dia eu não queria mesmo faltar à sua aula. Se calhar, para receber aquela carícia, sabe-se lá!… Eu vinha do tribunal, doutor, onde acabara de ser decretado o meu divórcio!… Ainda não tinha 21 anos e um filho nos braços. Nunca mais me esqueci das suas palavras! Estou-lhe muito grata. Já passaram mais de 10 anos! Obrigado!

1 COMENTÁRIO

  1. Bom dia, José d’Encarnação.
    Gostei muito deste texto, com um acento de humanidade que transcende a rugosidade do quotidiano.
    Devia ser muito especial, o Prof. Doutor Alberto Ramos, mas essa do “Olhos de Ver câo” não lhe saiu muito bem…Ou o aluno ligado ao episódio da vida real tinha um humor corrosivo, ou não o estimava assim tanto, ou estava pouco generoso em elogos, nesse dia.
    Enfim, nem toda a gente pode gostar de nós, mesmo quando alguns gostam muito. E a memória que dele ficara em Inês, é prova sobeja de que o Prof. sabia ser tolerante, perspicaz e próximo de outros seres humanos que por acaso eram alunos.
    Por isso falei no calor da humanidade, no princípio deste comentário.
    Um abraço.
    Dias muito felizes.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui