Uma pessoa fica com curiosidade: «da Pesqueira», porquê? E nesse município – limitado a norte pelo município de Alijó, a nordeste por Carrazeda de Ansiães, a leste por Vila Nova de Foz Côa, a sueste por Penedono, a sul por Sernancelhe, a oeste por Tabuaço e a noroeste por Sabrosa, ou seja, bem rodeado – era a pesca de rio a principal ocupação? Ou será que, um dia, o morador devoto fez promessa ao santinho, foi à pesca e veio de lá com o balde cheio, fora boa a pescaria e agradeceu! Aliás, pesqueira quer dizer isso mesmo: lugar propício a pescar.
Uma consulta na internet assinala, porém, três outros aspectos de que a população se orgulha: ser considerada o Coração do Douro Vinhateiro, inclusive porque, segundo vetusta tradição, aí terá vivido o Marquês de Pombal, que foi quem, no século XVIII, criou a Região Demarcada do Douro, um orgulho!
Orgulho há também em ser o mais antigo concelho do país, uma vez que a sua criação data de 1055.
Aponta-se, em terceiro lugar, como aspecto importante da sua história o facto de, segundo a tradição, «dentro de uma pequena gruta viveu e morreu frei Gaspar (1594-1615)». A história deste frade há, pois, que a descobrir, oculta na noite dos tempos!…
Uma inscrição romana
Sobejamente conhecido, ao invés, é o miradouro São Salvador do Mundo, acima da barragem da Valeira, por ter templo e capelas de grande devoção popular – quem há aí que não queira solicitar as graças do Salvador do Mundo? Mormente se esse Salvador for considerado santo. Estamos a falar de Cristo Salvador ou de um S. Salvador? Cá está, por conseguinte, outra questão a explorar.

Pois acontece que, em longínquos tempos já, numa das paredes exteriores desse templo, se engastou uma placa funerária romana, sem que se saiba donde é que poderá ter sido proveniente. Um manuscrito guardado na Biblioteca Nacional de Portugal, consultado por Frei Jerónimo Contador de Argote (1676-1749), deu-lhe a conhecer a existência dessa placa com letras, à qual não deixou de se referir logo no I volume (p. 332) das suas notáveis Memórias para a história ecclesiástica do Arcebispado de Braga, primaz das Hispanhas, dedicadas a el-rei D. João V. Já nessa altura estava na parede. Ou seja, importará percorrer, com olhos de ver, a região circundante, para encontrar vestígios romanos donde esse letreiro – cujas letras houve quem, indevidamente, mas com boa intenção, de negro pintou – possa ter vindo.
É latim:


Destinada originalmente a ser colocada no frontispício dum mausoléu familiar, conta a inscrição que Lúcio Sulpício Rufino, límico de origem (isto é, da região de um povo chamado Límicos), fez o jazigo para si e para três dos antepassados, todos da sua família Sulpícia: a Cílea, o Rufo e a Rufina.
Não é vulgar um documento assim.
Uma inscrição rupestre
Contudo, as surpresas de uma visita ao local e proximidades não se quedarão nos mistérios que a inscrição romana esconde. É que, numa rocha, deparamo-nos com letras gravadas, de estranho significado essas.
De facto, assinala-se na página 51 do livrinho sobre São Salvador do Mundo, publicado em 2007 por iniciativa do Gabinete Municipal de História, Arqueologia e Património: «são já bem notórios os dados comprovativos da romanização do território». No entanto, acrescenta-se, «a falta de escavações arqueológicas tem impedido a avaliação da sua correcta dimensão e enquadramento».
E, na página 52, lê-se, a determinado passo, que, a seguir à capela nº 6 (uma das capelas envolventes do santuário), «em frente aos Penedos de Judas, existe numa rocha aplanada a que tem chamado a Fraga do Diabo», «uma inscrição onde se vê algo parecido com o seguinte: Eco EM.P.S.EU’E – / AVEà P.S.EU. E». Aguarda interpretação e, de acordo com os autores do livro, será «uma inscrição romana adulterada em época posterior».
Ainda tentámos a nossa sorte:


Não andaremos certamente longe da verdade se, todavia, aventarmos que se nota paralelismo entre as duas linhas, evidente sobretudo na parte final, em que a letra P está antes de SEU E. Arriscar-se-ia afirmar que há mesmo um acento agudo a seguir como para dar a entender SEU É. Estaremos, assim, perante uma curiosa delimitação de propriedades em que cada um explicita o que é seu?
Mas, na verdade, tanto as pegadas na superfície do rochedo como estas letras (adiantamos já: romanas não são!), cujo sentido, de repente, inteiramente se desconhece, vão merecer maior atenção: que mistério nelas se esconde?

(co-autoria: José d’Encarnação)



