
Singular, de intensidade, a história de Baltasar, um dos três reis do Oriente, que, numa inquieta noite, sente, mais veemente, o vazio dos dias que a fortuna do palácio não lhe preenchia. E eis que descobre, ao amanhecer dessa noite de insónia e devaneio, ao assomar ao terraço do jardim, um homem ainda jovem que, recolhido na sua miséria, o olhava da rua sem rancor.

Fê-lo o rei entrar no palácio e. quando se prontificava a serví-lo, eis que o pobre homem se escapara, assustado.
Manda o rei procurá-lo, dando aos guardas os sinais do ”homem jovem e magro vestido de farrapos”. Mas os guardas voltaram dizendo ao rei que eram sem conto os homens como aquele que o rei descrevia. E só então aquele rei desceu ao chão onde vivia o seu povo e viu a multidão de esfomeados.
Entrou no templo e olhou devagar os seus altares. Um deles era dedicado ao deus dos poderosos, outro à deusa da terra fértil, outro ainda ao deus da sabedoria.
E perguntou o rei aos sacerdotes que ali serviam:

Na angustiada noite que se seguiu, Baltasar subiu ao terraço alto do palácio e fez do seu grito uma oração:
– Como poderei, ó deus dos pobres e humilhados, suportar o que vi se não te vir?
E foi então que uma estrela se ergueu e o guiou.
Escrevo evocando uma velha noite de um Natal antigo sempre lembrado com saudade. Era menino na aldeia. O Rei Baltasar era apenas uma poética figurinha no presépio da igreja. Nesse tempo, como acontecera a Baltasar, não me tinha dado ainda conta dos pés descalços, das roupas remendadas, do rosto magro de tanta gente que vivia ao pé de mim.
Meio século se passou desde então.
O “Rei Baltasar” que governa o meu país, os príncipes que ele chamou para conselheiros, os chefes dos guardas, os ministros todos que ele tem e os representantes que levou das províncias ou nelas deixou, não têm descido à rua, parece, e se descem os seus carros passam de cortinas corridas e nenhum deles vê as desgraças que Baltasar viu quando desceu e peregrinou entre o seu povo.
Ah! Se aquela estranha e antiga estrela pudesse ter sido avistada, de novo, no céu!… Se o rei Baltasar de nosso tempo e os seus ministros e os seus conselheiros e os seus guardas e demais criados tivessem um coração humilde…



