A eleição de Zohran Mamdani pode ser lida como um primeiro sinal de erosão do regime político-cultural imposto por Donald Trump. Nova Iorque volta a funcionar como laboratório democrático, demonstra que é possível substituir o culto da força, do militarismo e da intimidação por uma agenda declaradamente humanista.

O simbolismo foi imediato. Mamdani prestou juramento com a fórmula ritual “so help me God” (assim Deus me ajude), mas com a mão pousada no Corão. As palavras mantêm-se, o livro muda. Num tempo marcado pela demonização sistemática do Islão (talvez a mais intensa desde o pós-11 de Setembro), o gesto tem um peso político que ultrapassa o protocolo. Não é uma provocação, é uma afirmação de pertença democrática.
Mais perturbador, para certos setores, foi o que Mamdani afirmou durante a campanha: Nova Iorque deixará de ser porto seguro para líderes procurados pelo Tribunal Penal Internacional. Se isso se traduzir em prática política, Benjamin Netanyahu corre o risco de ser detido caso ponha os pés na cidade. Não é um detalhe: é um choque direto entre direito internacional e a habitual excecionalidade concedida a Israel.
As primeiras medidas do novo mayor foram igualmente claras. Em vez de baixar impostos aos senhorios, Mamdani atacou frontalmente a crise habitacional. Reativou o Gabinete de Proteção do Inquilino, nomeou para a sua direção uma ativista da habitação pública e aprovou um decreto que protege os inquilinos no processo de falência de uma das maiores empresas imobiliárias da cidade, uma empresa com milhares de violações registadas e dívidas à autarquia. Política concreta, com alvos identificáveis.
Resta acrescentar um dado que, nos Estados Unidos, continua a soar quase subversivo: Zohran Mamdani é filiado no Partido Democrata, mas assume-se como socialista. Num país onde a palavra ainda funciona como anátema político, a sua eleição diz tudo sobre a exaustão com um sistema que protege os mais ricos, perdoa crimes de guerra e chama “extremismo” a qualquer tentativa de justiça social.
O Império não caiu, mas Nova Iorque lembrou-nos que eles não são eternos.



