GUINÉ-BISSAU: QUEM PARTIU O PAIGC

DA CRISE À ESTABILIDADE: COMO ÚMARO SISSOCO EMBALÓ RECONSTRUIU O ESTADO GUINEENSE

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José Mário Vaz com Domingos Simões Pereira (foto de arquivo)

O recente e inesperado reencontro entre José Mário Vaz (JOMAV) e Domingos Simões Pereira (DSP) surpreendeu o país e reabriu feridas ainda não cicatrizadas. Para muitos guineenses, esses dois nomes evocam um dos períodos mais turbulentos e penosos da história política recente da Guiné-Bissau: a crise institucional que começou em 2015 e cujos efeitos ainda hoje se fazem sentir.

Ambos saíram das fileiras do PAIGC e chegaram ao poder em 2014 sob promessas de reconciliação e progresso. Mas, em pouco tempo, transformaram a vitória em tragédia. O Presidente JOMAV demitiu o Governo de DSP em agosto de 2015, alegando “perda de confiança política”. A partir daí, a máquina do Estado entrou em colapso. A Guiné-Bissau viveu anos de incerteza, sucessivas nomeações de primeiros-ministros, bloqueios parlamentares, greves, e um retrocesso económico e social devastador.

Um partido dividido, um Estado paralisado

O PAIGC, partido histórico da libertação nacional, saiu mutilado dessa crise. Internamente dividido, perdeu o prestígio e a coesão que sempre o distinguiram. A criação do MADEM-G15 foi o reflexo desse desmoronamento.

A rivalidade entre JOMAV e DSP não apenas destruiu a estabilidade política, como abriu caminho para a fragmentação das elites e o regresso da desconfiança generalizada nas instituições.

As intervenções da CEDEAO e das potências regionais mostraram-se ineficazes. O país, novamente, ficou à deriva — sem autoridade, sem credibilidade e sem um rumo claro. O termo “narco-Estado” reapareceu nos relatórios internacionais, e a esperança de mudança parecia perdida.

A emergência de um novo ciclo político

Foi neste vazio político e moral que surgiu Úmaro Sissoco Embaló, com um discurso de força, disciplina e reforma. Ao assumir o poder em 2020, o então Presidente apostou na estabilização do Estado, no combate ao narcotráfico e na reafirmação da soberania nacional.

Os resultados, embora sujeitos a debate, são visíveis:

  • A Guiné-Bissau voltou a ter um governo funcional e previsível;
  • O país registou melhorias na gestão das finanças públicas;
  • As Forças Armadas foram modernizadas e afastadas da política;
  • A diplomacia guineense ganhou respeito e visibilidade em fóruns regionais e internacionais.

A liderança de Sissoco Embaló rompeu com a cultura da hesitação e trouxe uma nova centralidade à Presidência da República. Sob a sua direção, o país recuperou autoridade, estabilidade e projeção internacional, três dimensões essenciais para a reconstrução do Estado.

O reencontro das sombras: pacto de conveniência ou sinal dos tempos?

O encontro entre JOMAV e DSP, embora apresentado como gesto de reconciliação, suscita dúvidas profundas. Será uma tentativa de reabilitação política de duas figuras desacreditadas? Será um movimento estratégico para reabrir espaço no jogo eleitoral e fragilizar as forças da coligação PAI–Terra Ranka? Ou será apenas o reflexo de um sistema político que, incapaz de se renovar, insiste em girar sobre as mesmas figuras e contradições?

O país mudou. O poder já não se constrói em reuniões secretas, mas no desempenho institucional e na estabilidade que o povo sente no dia-a-dia. O tempo dos improvisos e das intrigas passou.

Lições de um passado recente

A crise gerada por JOMAV e DSP foi, paradoxalmente, o ponto de partida para a consolidação do atual ciclo político. Dela nasceu a consciência nacional de que sem autoridade e estabilidade não há desenvolvimento possível.

Úmaro Sissoco Embaló encarna, neste contexto, o resultado e a resposta a essa aprendizagem coletiva: o líder que transformou o cansaço nacional em impulso de reconstrução. A Guiné-Bissau precisa de continuar esse caminho — não para servir homens, mas para consolidar instituições, proteger o Estado e garantir ao povo guineense o direito de viver em paz, com dignidade e progresso.

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