Donald Trump, em plena sessão do Knesset (parlamento israelita), declarou solenemente: “acabou a guerra em Gaza”. A frase soou como um eco de outros anúncios triunfalistas da história – só que, desta vez, a realidade desmente a retórica. Trump usou o pretérito perfeito para encenar um feito: a paz alcançada sob a sua égide. Mas no terreno, o que existe é apenas um cessar-fogo precário, dependente de um acordo ainda por assinar, e de equilíbrios políticos frágeis que podem ruir a qualquer momento.
Benjamin Netanyahu, mais manhoso, escolheu o futuro: “iremos alcançar a paz”, disse, projetando o problema para um horizonte indefinido, mantendo adiadas decisões difíceis. As formas verbais revelam a natureza política do momento: um proclama para colher glória instantânea, o outro promete para ganhar tempo. Nenhum assume a responsabilidade de enunciar – quanto mais de resolver – as questões estruturais do conflito.
Entre essas questões está o silêncio ensurdecedor sobre a criação de um Estado palestiniano viável, condição mínima para qualquer paz justa e duradoura. Ao contrário dos anos 90, quando Yitzhak Rabin e Shimon Peres, através dos Acordos de Oslo, admitiram publicamente essa possibilidade e Rabin pagaria com a vida, assassinado por um extremista judeu que via qualquer concessão como traição. Hoje a liderança israelita não precisa de assassinos outsiders para travar a paz: eles estão no próprio governo.
Enquanto isso, tenta-se apagar da memória coletiva os acontecimentos recentes. A ofensiva sobre Gaza foi marcada por bombardeamentos massivos sobre áreas civis, destruição deliberada de hospitais, escolas e infraestruturas essenciais, e pela utilização da fome como instrumento de guerra. Organizações internacionais documentaram crimes de guerra, e numerosos juristas internacionais apontam para a caracterização destes atos como genocídio, à luz da Convenção de 1948. Porém, nos discursos de Trump e Netanyahu, não há espaço para justiça, memória ou responsabilização, apenas para encenações políticas.
No fundo, o que se está a oferecer à opinião pública internacional não é um acordo de paz, mas um cessar-fogo adornado de pirotecnia diplomática, tudo transmitido pela televisão mas desprovido de conteúdo político real. A guerra é declarada terminada no passado perfeito e a paz prometida num futuro vago, mas a autodeterminação palestiniana continua suspensa no tempo, e os crimes cometidos permanecem sem resposta. A história já viu este filme: quando as palavras substituem os atos e o tempo verbal substitui a justiça, não se constrói paz, adia-se a próxima explosão.



