O PRÓXIMO DILEMA DO PS

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As candidaturas à Presidência da República são, por definição, atos políticos assumidos na primeira pessoa. Representam a vontade individual de um cidadão que decide apresentar-se ao país como alternativa para a chefia do Estado. Na prática, porém, raramente estas decisões são totalmente solitárias: nenhum candidato sério despreza apoios partidários. Em muitos casos, esses apoios são até o verdadeiro motor da candidatura – sobretudo no caso de pequenos partidos como o PCP ou o Bloco de Esquerda, cujos candidatos avançam por indicação direta das estruturas partidárias. O mesmo sucede com o Chega, onde a vontade do líder e a decisão do coletivo se confundem por completo.

É neste contexto que o PS anuncia para o próximo domingo a decisão sobre um eventual apoio à candidatura de António José Seguro. A escolha tem tanto de surpreendente como de simbólica: trata-se de um antigo secretário-geral que saiu derrotado e, desde então, manteve um afastamento quase total da vida política e partidária. Seguro deixou marcas profundas no PS – e não necessariamente consensuais. Criou anticorpos entre vários setores e chegou a pairar, nos últimos meses, a hipótese de dirigentes socialistas avançarem apenas para impedir que o partido apoiasse o seu nome. Augusto Santos Silva foi um desses casos: figura ideológica central do PS, colecionador de pastas ministeriais (Defesa, Negócios Estrangeiros, Assuntos Parlamentares), chegou a ser ventilado como potencial alternativa.

Eis senão quando José Luís Carneiro, atual líder socialista, admite que o partido poderá efetivamente apoiar Seguro. A decisão encerra uma ironia política: o candidato que em tempos foi empurrado para fora da liderança pode agora regressar pela porta grande, não como figura partidária, mas como candidato presidencial.

Seguro surge, aos olhos de muitos, como um “bom candidato”: não se agarrou a cargos políticos depois da derrota, mantém uma aura de incorruptibilidade e uma imagem de seriedade intelectual que o distingue de vários dos seus concorrentes – seja do líder do Chega, seja do ex-líder do PSD Luís Marques Mendes, seja do almirante Gouveia e Melo. Já os restantes nomes em cena representam, na sua maioria, candidaturas mandatadas pelos respetivos partidos (BE, PCP, IL, etc.), ou então iniciativas mais pessoais, movidas por ego ou motivações pouco claras.

A grande incógnita é dupla: por um lado, perceber se o eleitorado fiel ao PS se manterá coeso diante desta candidatura (Seguro avançou há meses, sem pedir licença ao PS); por outro, saber se António José Seguro tem notoriedade suficiente fora do universo socialista para conquistar votos que garantam uma presença competitiva nas urnas. Ninguem vota em quem não conhece e António José Seguro há muito tempo que anda longe dos holofotes mediáticos.

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