PATRÃO É CAMPEÃO, MATA TUDO

Fizeram-me um pedido. Estranhei, porque o “sitio” onde escondi a minha caixa de correio, afinal, está “visível”. Como nos descobrem os “locais” onde conversamos com quem queremos? Descobriram mesmo? Bom, afinal não é por aí que vem mal ao mundo. O certo é que descobriam e deram em perguntaram-me se, desse meu “lá” (Angola), além das histórias que ficaram impressas nesse meu livro, produzido a expensas próprias, eu tinha mais histórias. Em resposta, entreguei aos “perguntadores” umas notas. Por via disso, agora, para todos e não apenas para eles, aqui vai uma dessas historinhas, que nos fez rir na altura. Resumidamente, vai assim:

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Angola, caçar no tempo colonial

Estou a sair de casa no Cubal para ir até à fazenda do Franklim, comemorar os anos do pai. A minha família entra no carro. Abro o porta-luvas para ver se tinha os documentos e vejo um papel dobrado, que não estava na minha alçada, fazia tempo… Peguei-lhe e a mulher diz que o tirou de um livro que estava na estante e pergunta-me quando é que eu tinha escrito o poema. Desdobrei o papel, li e sorri. Respondi que tinha sido em Luanda. A inspiração surgiu de uma “quitandeira” que solicitava a uns rapazes a compra de uns doces que ela confeccionava. Escrevi-o assim:

A mulher diz-me:

– Sensibilidade para agarrares o lamento da quitandeira. Noto que continuas assim, deo gratias!

Quando cheguei à fazenda, já o Matos e o Borges se encontravam com as famílias. Notei, notámos, que Franklin andava “derrancadinho” para sair, queria ver se caçava uma onça. É que lhe tinham garantido a pés juntos que andava uma a rondar a fazenda todas as noites. O vício dele era tal…

Bom, Franklin, às vezes, contava umas histórias que mais nos pareciam anedotas. Porquê? Sabe-se l!. Foi essa a informação que teve: onça na “costa”.

Dizia então Franklin, que, por vezes – aqui sabíamos ser verdade – ia à noite caçar uma ou outra cabra, aproveitando para verificar as extremas da fazenda,  ver o gado que os pastores deixavam acomodado no mato, etc., e que até tinha visto pistas de onça…

Tanto andou que conseguiu que o desculpassem, tamanho era o vicio da caça. A ausência dele seria de, mais ou menos, uma hora, no máximo, dizia. Saiu com o inseparável capataz e guia de caça, o Tavongo.

Estava uma bela noite e, por acaso, não o vimos sair com a arma na mão, já a tinha no estrado do jeep. Seguiu. Depois de algumas voltas dadas, quem lhe aparece vindo do nada? O fiscal, bem nosso conhecido. O homem, tal como todos, vivia no Cubal. Aparece-lhe silenciosamente, o que era inacreditável para quem conhece o Franklin. Este fiscal era um sujeito que farejava o pessoal, tinha um andar de onça, como o Borges dizia.

Seria perto da meia-noite e meia. Estava Franklin numa extrema da fazenda com o Tavongo a seu lado. Franklin tinha combinado com o seu “braço direito”: antes que um qualquer fiscal chegasse junto deles e perguntasse se o patrão estava a caçar, ou se matava muita caça, devia dizer que não. “Olha, Tavongo, defende-me! Diz sempre que não!” O fiel “escudeiro” sabia como se comportar.

Chegou o fiscal junto deles, cumprimentou e começou um interrogatório disfarçado. Ia sabendo o que lhe interessava e, a determinada altura, dispara:

– Então e o farolim no jipe, é só para ver melhor o mato, não é, senhor professor?

Franklin ia respondendo:

– O senhor sabe bem que não é, mas também sabe que, tendo gado a pastar por todo o lado, necessito, por vezes, de saber onde é que os animais pernoitam. Ver se tudo está bem. É claro que não vou para perto deles ver. Ligo o farolim e vejo bem o que se passa.

E o fiscal continuava:

– Pois claro que é assim, nem uma arma o senhor traz, pois não?

– Tenho, sim, senhor! Também sabe que tenho armas e legalizadas. Preciso de me defender, para o caso de, alguma vez, uma onça me atacar. Sabe que por aqui há muitas. Também sabe que tenho tudo legalizado – ia respondendo Franklin.

– Muito bem – brincava o fiscal. –Toda a gente sabe, nas redondezas, até os seus empregados o dizem, que o senhor não percebe nada de caça e é um mau atirador, que não acerta sequer num elefante, nem a dois metros.

Aqui Tavongo, furioso, entra num repente na conversa e exclama:

– Não sinhôr, não é vérdáde! O pátrão és cámpião, máta tuto!”

Franklin ficou sem pinta de sangue.

O fiscal desata à gargalhada. Achou graça à defesa que o capataz estava a fazer do patrão e… não o multou! Teria por base o depoimento da “testemunha”, que afirmou peremptoriamente que o patrão caçava mesmo. Franklin, primeiro com riso amarelo, mas, depois, num riso franco, acabou por levar o fiscal para a fazenda a beber uns uísques. E regressámos todos ao Cubal, fiscal incluído.

Foi assim… A simplicidade das coisas a criar afectos, a despertar sorrisos, a gerar entre nós cumplicidades sorridentes…

(fotografia partilhada daqui)

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