LAR DOCE LAR

Não há quem, indo para Sul pela A2, não admire os condomínios de cegonhas na bacia hidrográfica do Tejo e do Sado. Alguns casais já ficam por cá o ano inteiro; outros, porém, ainda voam milhares de quilómetros, decerto sempre a ‘pensar’ no ninho que, no ano anterior, por cá deixaram.

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 O ninho. A casa. O espaço devido a cada ser vivo e à sua prole. “Ter casa” – o sonho acalentado.

Se tal anseio é seguramente de todas as épocas, desde o Homem das Cavernas, períodos houve em que o sonho concretizado tanto representou que se não hesitou em o datar, a frontaria do edifício ou, se for no Algarve, na chaminé.

Haverá, muito possivelmente, já estudos a este respeito. E é provável ter-se concluído, por exemplo, que os turbulentos finais do século XIX possam ter sido um desses períodos de maior vontade de assinalar essas datas.

Uma casa em Aldeia de Nacomba

Assinala-se a data e põe-se também o nome do proprietário. Muitas vezes apenas em siglas, porque a vizinhança sabe bem quem é, nós, tantas décadas passadas é que não e – se maior curiosidade houver – lá teremos de bater à porta das Finanças ou do Registo Predial, a fim de consultar documentos.

Não admira, portanto, esta data e esta sigla na frontaria de aparentemente abandonado casebre da Rua Via Romana, na povoação de Aldeia de Nacomba, União das Freguesias de Pêra Velha, Aldeia de Nacomba e Ariz, concelho de Moimenta da Beira.

O canteiro optou por grafar da mesma maneira o I e o 1; contudo, o que mais chamará a atenção é o coração estilizado. Sinal de amor e gratidão, como o gesto habitual de mãos a desenhar coração, hoje diariamente usado nas mais variadas circunstâncias? Decerto.

Permita-se-nos uma outra interpretação, mais simpática para o historiador. É que já no tempo dos Romanos a folha de hera – muito semelhante a um coração – era usada nas inscrições para separar palavras. Era tão bonito o seu recorte!… Veja-se a inscrição romana que está no Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra: lá estão as heras, desta vez até com o pecíolo e a representação esquemática do tronco a que se prendia.

Agradou-nos, pois, deveras que, em 1890, em pleno neoclassicismo, em mui remota aldeia do interior concelho de Moimenta da Beira se haja encontrado esta curiosa herança cultural…

(artigo em co-autoria com José Carlos Santos)

9 COMENTÁRIOS

  1. De: João Coutinho
    2 de julho de 2025 16:05
    Pois é, meu amigo
    Lar, o termo que traz momentos de felicidade passados em família e, nos dias de hoje, cada vez mais difícil de pronunciar, por aqueles que o vêem como uma miragem.
    Principalmente para os nossos jovens, ao pretenderem afirmar-se na sua merecida independência, e se vêem com dificuldades em possuírem o seu espaço, sujeitando-se a viver com os familiares enquanto não chega o seu dia.
    Tal como para os que procuram o país para conseguirem o sustento dos seus familiares, cuja distância determina a sua origem.
    Esses sujeitam-se ao que é possível, a maior parte das vezes em habitação utilizada por muitos, todos ao molho e fé no Senhor.
    Através da imprensa, chegam as vozes de doutos políticos a arremessar a culpa para o parceiro do lado, verberando que nada fizeram.
    Pelo estado da coisa e muitos sabem que a conversa da treta chegará até ao dia em que terminarem o mandato, e muitos sabem que pouco ou nada se fará … ou quase nada.
    A culpa dessa condição recairá sobre o custo, à falta de terrenos ou aliado à galopante inflação que já chegou na última onda, assim como às múltiplas habitações sem uso, de alguém que se protege na legislação. Essa, que impede o uso de forma a ir ao encontro das partes.
    E, desse modo, só podemos dizer felizes dos que têm um lar e votos para que quem não o possua que, um dia, tenham o seu cantinho.

  2. Pires Laranjeira
    2 de julho de 2025 17:05
    Caro “farejador” de preciosidades “perdidas” por essas terras do mundo aqui tão perto. Textos curtinhos, pedagógicos, calmos e que sabem catrapiscar a sensibilidade do leitor, que, feitas as contas, tem tanto que ler/ver, que não tem tempo para chegar a esses pormenores, se é que pudesse conseguir reparar neles!
    Abraço.

  3. De: maria helena coelho
    2 de julho de 2025 12:50
    Caro Amigo
    Repito o de sempre e com a maior admiração – o que tu descobres!…
    Resposta:
    É verdade: decidi-me a ir por i, à cata de coisas fora do comum. Toda a gente as vê, mas nem todos as lêem!
    Um beijo, grato pela tua presença constante.

  4. Mais DUAS LINHAS de densa e intensa sabedoria, a desaguarem, destas feita, na recôndita Aldeia de Nacomba, Celorico da Beira.

    Grande abraço

    José Azevedo e Silva

  5. Muito vou aprendendo de Geografia, nestes textos.
    E com pesar verifico que nunca passei por aldeias com inscrições antigas, ou imitação das que lembram as romanas.
    Aldeia de Nacomba…ia jurar que Nacomba era um nome africano. E como em 1890 D. Carlos se debatia com os ingleses sobre as possessões africanas, recebendo o ultimato…
    Bom, estou a tergiversar um pouco, usando um verbo difícil para não repararem que nada conheço da etimologia do topónimo.
    De qualquer modo o ninho, qualquer que fosse ou seja o seu formato e planta (número de andares) sempre teve e terá para os seus habitantes a mesma noção de aconchego.
    Esta inscrição – e de mais uma se trata gravada na pedra – fica na Rua Via Romana e parece ter sido inspirada pelo nome, ou o nome dado à Rua pode ter-se inspirado na inscrição da casa abandonada e que eu acho tão poética.
    Folha de hera, diz o nosso exímio epigrafista e autor do texto, que sabe melhor do que ninguém. Mas como ficcionista a especular, não podia a data referir-se à morte do proprietário e aquele pauzinho no coração partido da mulher, a referência ao lugar (ali) onde ele perdera a vida?
    Grata pela permissão de conjecturar, José d’Encarnação, com as propostas destes textos. Afinal já não ofendemos ninguém com tal labor.
    Um abraço.

  6. De : Antão Vinagre
    Data: 05/07/25 12:34
    Gostei muito do teu interessante artigo. Nas minhas frequentes viagens para Alter do Chão, chamam-me sempre a atenção esses ninhos de cegonhas.

  7. Caro novo AMIGO e professor
    O que eu já tenho aprendido desde que nos conhecemos, há dois dias!! Quem sabe, sabe. Mas saber explicar a quem não sabe, com palavras simples e “Clarinho, clarinho, que é para militar!” tem ainda mais valor.
    Teria muito que dizer sobre este seu artigo. A começar pela imagem das cegonhas… que me recordou logo o recente apagão (do qual, por cá, ainda não se explicou nada, apenas se atira com as culpas para Espanha, quando muito provavelmente por cá também temos fotovoltaicas a mais e se eliminaram já centrais daquelas que asseguram maior estabilidade da Rede). É que há já muitos anos também houve outro apagão, que então foi, falsamente, atribuído a uma cegonha. Como em Portugal a culpa morre sempre solteirona, arranjam-se a cegonha que fique mais à mão. E o assunto – de que só raros sabem as verdadeiras razões – morre depressa. Ninguém vai pedir que se meta uma cegonha na prisão.

    Também me interessou o facto de se pôr a data nas casas. É que na minha casa os construtores puseram a data sobre a porta, sem que eu lhes tivesse pedido tal, e sem me ter lembrado de lhe perguntar porque o teriam feito. Agora fiquei muito mais informado, até sobre a minha própria casa. Obrigado!!

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