A tradição da Feira da Azambuja, como tantas outras do Ribatejo, é feita de cruzamentos culturais: do folclore ao fandango, da tauromaquia às romarias, e as influências ciganas estão presentes em tudo isso. Fingir que não estão é apagar séculos de convivência, trocas e tensões que fazem parte da realidade do campo português. Excluir um cantor cigano em nome da “pureza” cultural é uma operação de branqueamento ideológico racista, não um ato de defesa da tradição.
Este ataque a Nininho é também a continuação de um padrão. Durante a última campanha para as legislativas, por onde passou a caravana do Chega, surgiram manifestações espontâneas de cidadãos ciganos que protestavam contra a criminalização sistemática da sua identidade. Eram protestos pequenos, por vezes ignorados pelos grandes meios de comunicação, mas carregados de coragem e dignidade. Gente comum que dizia basta ao discurso de ódio travestido de “coragem política”.
O caso de Nininho, em pleno arranque da pré-campanha para as autárquicas, deve ser lido nesse mesmo registo. É um ensaio de exclusão simbólica. Um gesto calculado para mobilizar os ressentimentos, dividir a sociedade, e garantir uns votos à custa da dignidade alheia.
Convém lembrar que os direitos culturais e a liberdade de participação em eventos públicos não estão condicionados pela origem étnica de ninguém. Nininho Vaz Maia tem todo o direito de atuar na Feira da Azambuja, tal como qualquer cidadão português tem o direito de não ser tratado como suspeito à nascença. Foi isso que disse o Presidente da Câmara da Azambuja a quem lhe pediu uma opinião, no caso a CMTV.
Defender Nininho neste momento é, portanto, mais do que defender um artista. É afirmar que Portugal é feito de muitas vozes, muitos sons, muitas tradições e que nenhuma delas será mais portuguesa do que as outras.
Nininho Vaz Maia é hoje um nome incontornável da música popular portuguesa. A sua voz e a autenticidade que o caracterizam conquistaram o público muito para além da comunidade cigana. Tornou-se símbolo de um percurso pouco comum entre artistas de origem cigana em Portugal: sucesso, reconhecimento institucional e mediatismo positivo. É por isso um alvo para os racistas.




