A BORDA DO PÃO

UM VELHO RITO DA BEIRA

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Uma das antigas tarefas confiadas às mulheres, na Beira, às mulheres camponesas, era o fabrico do pão quotidiano, pão de centeio quase só. Tarefas múltiplas, que iam do medir, da arca, o grão até ao moleiro que o trazia, dias depois, retirada a maquia.

E era, depois, esse bate-que-bate da peneira, retirando o farelo. E era, depois, o amassar sacrificado, o levedar sob o agasalho de um velho cobertor, a ida ao forno. O cheiro bom, finalmente, sobre a toalha de linho da mesa posta para a refeição.

Ritualidades várias, algumas carregadas de magia, outras tão só de poesia, associavam-se ao pão servido em cada dia, logo desde a sementeira.

A borda do pão era um desses ritos gostosos, rito que se conta agora, trazido das memórias da infância.

Havia um velho costume na minha terra, aldeia da Beira Alta plantada em solo de granito. Os homens eram rijos como ele, mas havia solos brandos também, onde os frutos medravam, vinhos palhetos e maçãs saborosas. Os homens tinham também um coração que se alvoroçava nas festas e que chorava, lá dentro tão só, sentindo a morte de um amigo.

Na casa dos lavradores, havia sempre pão para dar ao filho, pão partido em pequeninos, antigamente, nos longos meses de Maio. Partía-o o pai ou a mãe, na hora santa da refeição participada ou noutras horas do dia, o miúdo chegado da corrida: – Mãe, dê-me pão!…

Havia fartos pães de centeio, os olhos dos miúdos gulosos dos olhos do pão, alvura de neve, o grão moído na mó alveira, a mãe peneirando-o num serão demorado, o bate-que-bate da peneira batendo, um poema de dor ali lhe nascendo, mas onde a mulher só lia palavras de amor.

O pão sobre a mesa era a mesa posta dos pobres de pão. Pão de cada dia, partido com gestos que eram um rito, tinha milénios o rito, vinha do tempo em que as primeiras searas alouravam em volta de um altar da Deusa-Mãe.

A mãe abraçava a roda do pão contra a roda do seu ventre, às vezes pejado. E a primeira fatia que ela cortava no círculo largo do pão, essa calote oblonga, a borda do pão, era sempre para o filho mais novo.

Havia naquele gesto a invocacão das forças da terra que em vão prendia, um maná subjacente naquele fragmento de matéria que animava um ser. Havia um mistério.

O filho já esperava a borda do pão. No mundo das culturas antigas, a iniciação começava muito cedo!…

A mãe julgava que o filho se iria casar no tempo certo, comendo daquele pão. E o filho ia interiorizando os velhos costumes dos avós.

Uma boca deixaria, mais tarde, a mesa daquele lar, mais pão sobre a mesa, outras searas de pão nasceriam, o ventre da terra e o ventre de nova mulher ondeariam na lonjura do tempo crescendo depois, multiplicados os grãos, multiplicados os homens, os gestos de um tempo antigo perdurando!…

1 COMENTÁRIO

  1. Maria De Jesus Brito
    O pão, alimento essencial para tantos, sagrado ao longo das gerações, que o veneravam , obedecendo a rituais específicos, desde a sua confecção.
    Pão que se beijava se, por acidente, caia no chão…

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