OS ROMANOS EM BEJA

… por imperdoável distracção, foi escrito que era de bronze: é de cerâmica e foi encontrado, como pela imagem se percebe, em fragmentos que mui cuidadosamente se colaram.

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Mas donde é que viria tanta barata? Um inferno. O senhor desarredou tudo, espalhou pesticida e… nada! Perdeu as estribeiras e escaqueirou o pavimento. Resultado: caiu numas termas romanas! É assim em Beja desde há séculos: abrem-se uns alicerces e surgem estruturas romanas, pois a cidade foi construída em cima da romana Pax Iulia. E não há que fugir.

Desta feita, foi numa casa particular em frente do Museu Regional Rainha Dona Leonor. Intrigado com a estranha proveniência duma inusitada praga de baratas, resolveu cavar o chão da casa. Qual não foi o seu espanto, quando topou, além do ninho das baratas, uma série de estruturas arquitectónicas antigas, prontamente identificadas como pertencentes a um balneário romano.

O balneário romano que estava infestado de baratas

Acorreram, pois, os responsáveis da obra e os públicos. Tudo remiraram e sentaram-se à mesa a tomar decisões. Conclusão: escavações arqueológicas prévias, de molde a adaptar às ruínas existentes a arquitectura a remodelar.

Sábia decisão, a merecer o maior apoio – espera-se! – por parte das entidades que ao património arqueológico superintendem (Câmara Municipal e competentes organismos do Ministério da Cultura), pois é de muito louvar a atitude do proprietário ao ter mandado parar os trabalhos mesmo depois de ter descoberto… donde é que vinham as baratas!…

Um museu na Rua do Sembrano

Situação idêntica se passou há anos ali bem perto, também no núcleo urbano. As obras previstas foram canceladas, fizeram-se escavações em extensão e, hoje, temos ali um museu.

Antes de darmos conta dos materiais mais significativos ali expostos para incentivar a visita, há dois aspectos a sublinhar:

1º) As estruturas arqueológicas foram cobertas por vidro, de modo a proporcionar que o visitante as veja de cima e se aperceba, assim, da sua grandiosidade e notável estado de conservação.

O chão de vidro

2º) Aqui se deu um passo de gigante no sentido de resolver uma polémica antiga: fora a colónia de Pax Iulia criada de novo? Ou seja, dizendo por outras palavras: quando o ditador César e, depois, o 1º imperador romano, Augusto, seu filho adoptivo, decidiram enviar para ali colonos a fim de povoarem a região, beneficiando-os, por outro lado, com a concessão de terras, estava o sítio despovoado ou não?

A questão põe-se porque Évora foi chamada Liberalitas Iulia Ebora e Lisboa, igualmente fundada na mesma ocasião, teve o nome de Felicitas Iulia Olisipo, enquanto que Beja só se conhece como Pax Iulia. Ebora e Olisipo eram os nomes primitivos das duas referidas cidades; nesse caso, qual era o nome pré-romano de Pax Iulia? Tal ausência levou a pensar que não havia gente ali onde os Romanos se fixaram, pois nome anterior não havia.

Já antes uma inscrição, embora pouco clara, parecia dar a entender que, na orgânica administrativa da cidade, houvera dois organismos: um para os romanos recém-chegados e outro para os indígenas. Faltava, porém, um testemunho concreto. E esse testemunho aqui se encontrou, na Rua do Sembrano: detetaram-se níveis de ocupação pré-romana, isto é, datáveis da Idade do Ferro. Estava resolvida a questão! Falta agora descobrir por que seria designado esse povoado anterior à chegada dos Romanos.

Um espólio curioso

Muitos são os aspectos e/ou artefactos a que se poderia fazer referência, para aliciar o visitante. Cingir-nos-emos a dois, para despertar curiosidade.

O 1º é este singular, extraordinário e único touro de barro, encontrado em ambiente funerário, a simbolizar força e augurar abundância. Ainda que levemente reclinado, de patas dobradas ao nível dos joelhos, as narinas abertas e a cauda erguida sugerem movimento, força!

O 2º é esta pega da asa de um balde (sítula, de seu nome técnico), a mostrar o desejo do artesão de mostrar a sua habilidade (Fig. 6). Assim, em vez de um ‘espelho’ singelo, liso, decidiu-se a esculpir uma máscara a seu belprazer.

Anote-se, a propósito, que continuam com acompanhamento arqueológico os trabalhos relacionados com o Plano de Rega do Alentejo e a distribuição das águas do Alqueva. Este mascarão, por exemplo, foi achado no Monte da Ramada, em Ervidel (concelho de Aljustrel), precisamente no âmbito do acompanhamento do revolvimento de terras para esses planos de rega.

Deste modo, o Núcleo Museológico da Rua do Sembrano não se assume apenas como ‘museu de sítio’, a mostrar as estruturas que estão debaixo dele, mas também como repositório das peças mais significativas identificadas nos trabalhos arqueológicos em curso. Corre, pois, sério risco de ir vendo o seu espólio renovado aos poucos, ali no coração da cidade, a possibilitar sempre «uma viagem através dos cerca de 2500 anos da história de Beja»!

1 COMENTÁRIO

  1. De: Jorge de Alarcão
    21 de junho de 2024 09:23
    Muito interessante a sua nota sobre Beja. O Presidente da Câmara devia lê-la, para se convencer da importância das ruínas e da necessidade de uma política de exploração séria e de valorização.

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