MÚSICA NO CORAÇÃO

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Querido amigo Calisia:

Toda a vida me acompanhaste! Foste durante muito tempo uma razão, uma referência, um prolongamento de mim mesmo! Sempre te amei, vi em ti uma esperança, um desabafo, o abraço. Como bom amigo, não só me acompanhaste nos bons momentos, como também estiveste presente nos maus. O meu comportamento bipolar para contigo foi uma constante ao longo dos anos. Da mesma forma que te amo e te trato com amor, descarrego em ti, toda a minha mágoa, tristeza e fúria! Com mais ou menos fragilidades, com mais ou menos pó, tu estiveste lá para mim, parado, à espera que fosse ao teu encontro. Ainda assim, odiei-te! Foste muitas vezes instrumento da minha vaidade e, em paralelo, da minha vergonha.

Um dia descobri que um amor não precisa de ser perfeito, que o amor não é perfeito. Provavelmente passei demasiado tempo a tentar dizer-te algo, esquecendo o que tinhas para dizer. Incrível que, apesar de velho e cansado, depois de tudo aquilo por que passamos, ainda olhas para mim e me convidas a sentar ao teu lado. Talvez te deva um pedido de desculpas ou talvez deva procurar desculpar-me a mim próprio. Sinto que vivemos tanto uma mentira que a mentira se tornou real. E apesar de mentira, foi verdadeiro.

Agora os nossos encontros são menos constantes, mas sinto muitas vezes a tua falta. Matamos saudades sempre que surge uma oportunidade! Nasceste primeiro que eu e sei que viverás mais do que eu. Sei que viverás mais histórias para contar.

A minha avó escreveu poemas sobre nós. Depois de ela falecer, eu ainda encontrava pequenos papéis escondidos nos bolsos dos meus robes, referentes a nós. Sorrimos e choramos juntos. Conheceste todas as minhas paixões. Ajudaste-me a descobrir o que dizer, quando as palavras não serviam. Quando senti necessidade de substituir um por outro, derramei vinho sobre ele, e o mesmo virou-se contra mim. Já tu!!! Tu és à prova de vinho!! És à prova de mim mesmo.

 Até sempre meu velho piano. Estarás sempre no meu coração

1 COMENTÁRIO

  1. O que se chama uma história bem contada, porque, no final, precisa-se de voltar a ler, dada a surpresa que fica. E, sobretudo, a mensagem que fica e que, hoje, ganha cada vez mais valor: deverá haver sempre um lugar para a música no nosso coração!

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