Epá! Tantos projectos, tantas coisas para fazer, deixa-me já escrever na ardósia. Humm, abrir também uma folha de Excel, fazer uma lista. O calendário, tenho de actualizar o calendário com muitos lembretes! Uff, só de ordenar tudo fiquei cansada. Um café bem forte, uma cigarrilha e bora lá. Mas antes o trabalho da agência, a renda vem primeiro.
No meio da pro-actividade, ela atravessa a porta. Visita as divisões da casa, assusta-se com o gato. Ele bem conhece estas bruxas que há muito deveriam ter sido queimadas na fogueira. Mas não, a Inquisição salvou-as da agonizante morte, deixou-as sobreviver até ao presente, não podiam viver em melhor época. Eu, indiferente à sua presença, continuei a despachar emails.
Vejo no monitor o reflexo um escorpião gigante, medonho! Ferra-me nas costas e atravessa o estômago. Jorro sangue pela boca, a dor é infinita, tudo à minha volta é vermelho.
Controlo a respiração, limpo a boca com a mão, não há sangue. No ecrã também não, nem nos papéis, na caneca ou na mesa. Se calhar ontem abusei nas tequilas, a visão dantesca foi um efeito colateral… Tenho de passar a ter mais respeito pela “repousada”.
Volto aos emails. Levanto-me para pôr creme na cara, volto aos emails, levanto-me para varrer os pelos do gato, volto aos emails, levanto-me para fazer coisa nenhuma… a não ser adiar. Sinto as costas dobrarem-se, o corpo pesa, faço um esforço transcendental para enviar três emails. Demoro meia hora.
É aí que percebo. Em forma de escorpião, a bruxa Ataraxia picou-me e continua por aqui. Não a vejo, não a cheiro, sinto-a.
Enfio-me no pijama, desligo o telemóvel, quero dormir, talvez nos sonhos ela não me encontre. Eis que o escorpião, agora multiplicado em mil pequenos, pica-me com o veneno da procrastinação, outra ferrada com o veneno da lassidão, mais outra carregada de preguiça, ainda outra a transbordar de apatia, por fim, a picada mortal da indiferença.
Deixo de lutar, enterro-me na múltipla dor, rendo-me às ideias destrutivas. Todos os meus projectos são uma merda, não vou ganhar nenhuma candidatura, não vou acabar os conteúdos. “Não sou nada, nunca serei nada”.
Caio vertiginosamente num buraco escuro que se abre no tapete. É infinito, percebo que vou morrer. Cá em cima, a bruxa Ataraxia coça a verruga, solta uma gargalhada estridente e voa da casa para fora.
De repente, fico suspensa, a flutuar. Olho para o meu corpo, nenhuma cicatriz dos mil escorpiões. Sinto-me uma nuvem.
Vejo uma luzinha, é uma das fadas madrinhas da Bela Adormecida, a azul, do tamanho da minha mão. Com um toque da varinha mágica põe-me de pé, embora não haja chão.
“Bem-vinda querida”. “Onde estou?” “Estás no limbo entre morreres ou lutares pela vida”. “Mas morri com as picadas dos mil escorpiões…” “Foi? Ou será que te deixaste vencer numa luta que não podias ganhar na altura? Os escorpiões ferraram-te, mandaram-te abaixo com todos os maus sentimentos que te fazem desistir dos objectivos, dos teus sonhos, de quem queres ser. É difícil sobreviver à bruxa Ataraxia, é muito poderosa, mas não é a primeira vez que te visita, desconfio que não será a última. No momento em que te viu cair por este buraco, virou costas, deu como garantida a perda da tua força e foi fazer mal a outra pessoa. Mas, não vês que todos esses sentimentos já faziam parte de ti? Hão-de sempre fazer. São parte do processo criativo, da angústia que este arrasta, da tua própria natureza. Foi precisamente no momento em que te rendeste ao veneno dos escorpiões que ficaste imune. Foi assim que conseguiste reerguer-te. Por muito que não acredites a tua luz é enorme, os teus sonhos não são quimeras, na verdade, és capaz de tudo. Mesmo sendo preguiçosa, sabes que és, aceitaste todo o veneno, mas, volto a dizer, este já existia em ti. Foi assim que venceste. É quando reconheces as tuas fragilidades que ganhas o poder para as enfrentar. Os medos combatem-se. Percebeste? Humm, nem por isso, hás-de lá chegar. Pronto, pronto, agora vai descansar. Estou sempre por aqui se precisares”. Adormeço na cama com o gato enroscado a mim.
Sete da manhã, acordo antes do despertador! Ponho um pé no chão, sinto que pisei umas cascas crocantes mas não vejo nada.
Está um dia de chuva maravilhoso! Duche bem quente, um pequeno almoço saudável, café. A vassoura da cozinha cai no chão com um grande estrondo. Abro o portátil.




Gostei dessa bruxa malvada. Cuidado com as vassouras…
Muito cuidado…