Olhar para a pobreza e não olhar para os pobres

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O modo como os dados sobre a pobreza estão a ser tratados pelos media talvez mereça uma reflexão. Começa logo pela fotografia adotada para ilustrar a situação. Hoje, todos os órgãos de comunicação social não dispensam site e redes sociais e, assim, a imagem é tão fundamental como o texto, às vezes até mais.

Por exemplo, a TSF escolhe uma foto de uma mão com unhas sujas. A agência Lusa escolheu a imagem de um velhote. No site do Expresso, o Banco Alimentar Contra a Fome. No noticiário da RTP, ao lado da apresentadora bem vestida um pobre embrulhado numa manta encostado a uma parede. Ou seja, os media dizem-nos que pobre é um velho, sem abrigo, não toma banho e come na sopa do Sidónio (nome popular e antigo, atribuído às organizações que fornecem alimentação cozinhada aos pobres).

Nos diferentes textos dos vários media, a mensagem também é uniforme porque os dados não são trabalhados, apenas repetidos. Assim como a Lusa escreveu, assim se lê por todo o lado. E a Lusa muitas vezes apenas retransmite o que a fonte falou.

É assim que as incongruências não são despistadas. Por exemplo, dizem-nos que nunca houve tão poucos pobres, como hoje. São “apenas” 1 milhão e 600 mil pessoas a viver com menos de 540 € por mês. Ou seja, 18 € por dia. Mas, ao mesmo tempo, lemos que aumentou o número de alunos que têm apoios socioeconómicos. Outro exemplo, a pobreza aparece ligada à falta de escolaridade. A maioria dos pobres não têm mais do que o 9ºano de escolaridade, o que é estranho numa economia baseada em salários baixos e mão-de-obra não qualificada. Isto, enquanto nos dizem que o desemprego não aumentou. E ninguém fala do desemprego de longa duração que afeta maioritariamente, suponho, pessoas com mais de 55 anos e escolaridade acima da média. Quantos licenciados, mestres ou doutorados não têm emprego? para os mais jovens, o IEFP tem um bom número de formações e de planos, inclusivamente para projetos de criação do próprio emprego. Mas que respostas existem para desempregados com mais de 55 ou 60 anos de idade e com qualificações académicas de nível universitário? Se alguém souber as respostas, digam-me.

Ou seja, pobreza não tem um estereótipo. A pobreza tem múltiplas facetas, muitas delas escondidas ou dissimuladas. Não só pela vergonha, mas também pela resiliência. A estatística é uma mentira, em termos concretos. Para desmontar isso, o que as pessoas esperam dos jornalistas são histórias com gente viva. Dispensamos “chouriços” informativos.

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