No presente, o Outono é bem a estação evocada por Verlaine – Les sanglots longs / Des violons dʼAutomne / Blessent mon coeur / Dʼune langueur / Monotone – poesia que ficou tão famosa por razões bélicas, nada românticas, num tempo em que as guerras românticas – se alguma vez as houve para os combatentes – já tinham passado de moda. Caem as folhas, espalhando-se generosamente pelo chão, lembrando-me alguém que gostava de passar sobre elas, ouvindo-as estalar, secas, ecoando do fundo dos tempos a sabedoria homérica que compara as folhas caídas com as gerações humanas, tão espantosamente aptas a desperdiçar a vida. A mesma melancolia vaga me incomoda agora, quando contemplo ruínas ou velhas inscrições, diferente da dionisíaca reacção de Camus nas ruínas de Tipasa, empolgado pelo calor e pela luz, tão à margem do simbolismo que estas e outras tiveram na trágica saga da Argélia francesa.
Tomemos uma inscrição romana, aliás bem conhecida: MARTI / AVG. SACR / C. SEVIVS / LVPVS / ARCHITECTVS / AEMINIENSIS / LVSITANVS EX. V. Inscrição gravada na rocha junto ao farol romano da Corunha, a celebrada Torre de Hércules, dá-nos a conhecer o nome do construtor, que usou de uma artimanha, um texto consagrado a Marte Augusto, ou seja, ao imperador, contornando a impossibilidade de indicar a sua qualidade de responsável técnico pela obra. Mas apesar da espécie de business card que encontramos nas linhas três a sete, restam-nos muitas dúvidas.

Quem foi, realmente? Um militar? Onde aprendeu a arte? Que mais construiu? Como viveu? Foi feliz? Já existia um farol anterior? Provavelmente algumas destas perguntas não terão resposta satisfatória, ainda que se possa perorar sobre aspectos que quase sempre deixam o indivíduo – persona – à margem.
O tempo agora é rápido a deixar muita coisa para trás, sobretudo quando contabilizamos – que palavra desagradável – os muitos que nos antecederam, familiares, amigos, simples conhecidos. A chegada do Outono, confirmada pela reunião das andorinhas preparando a grande aventura da migração para Sul, como há pouco as vimos em São Martinho do Porto, desmontada a praia e partidos os banhistas também eles migrando sabe-se lá para que rotinas conformadas. Receio não as poder acompanhar às cidades do Sol que um dia visitei e a outras que se furtaram à minha presença, como a desgraçada Palmira, ultrajada noiva do deserto, violada e logo esquecida quando surgiram outras guerras, mais dignas de comentários e mais rentáveis. E agora?
Mas também me faltam outras, nórdicas, sobretudo uma, escondida ao fundo do Báltico, onde Kant sonhou a Paz Universal, cidade que deu origem ao Teorema de Euler e da qual, na verdade, pouco ficou do que foi, um dia. Talvez eu esteja a sentir o mesmo que Axel Munthe, quando trocou a claridade ofuscante de San Michel, toda italiana, pela luz velada da Torre Materita, ainda que em Capri. Mas ele era escandinavo e assim, de alguma forma, se reconciliava com as origens. Li várias vezes O Livro de San Michel – um dos livros preferidos de minha Mãe – e talvez a abundância de antigualhas romanas que nele encontramos tenha contribuído para o meu gosto precoce pela arqueologia, gosto que só tardiamente se concretizou e que exigiu muito esforço e alguns sacrifícios partilhados, embora o mar me tenha ficado sempre como perda velada do que nunca tive.

Mas este cansaço nem sempre esteve presente. Recordo o que publiquei na segunda destas reflexões no Duas Linhas, estimulado pela vontade de ascender à tal elite de que falei no escrito e a que cria ter direito, texto redigido muito antes, pois permaneceu na gaveta durante sessenta anos. Mas agora a minha geração vai desaparecendo, o que me sugere prudência e continência nos desejos, sem que, fechando os olhos, não continue a ver flutuar a bandeira a tope do mastro de uma certa fortaleza. Tantos sonhos e quantas desilusões! E algumas pedras antigas, que me deram pequenos contentamentos, como a do templo de Marte, em Idanha-a-Velha. Um dia falarei dele.
Eis o Outono, com uma quase certeza do que vem depois, o Inverno, com os seus diversos logros, mais penosos nas nossas cidades babélicas e desagradáveis, onde não se fazem vindimas nem se colhem azeitonas, lembrando de passagem a presença mediterrânica nesta terra atlântica e uma vida que gostaria de ver, neste mundo de disparatadas ficções político-económicas, nobilitada e reconhecida. Eis o Outono, com a chuva, o frio e a escuridão à seis da tarde. Afinal, tudo tão necessário para que Perséfone faça germinar, na escuridão, as sementes do futuro. Que ele seja profundamente português e humanista.

Hoje, para que não restem dúvidas quanto à estação em que mergulhamos, chove, o que obriga a recorrer a esse objecto incómodo que é o guarda-chuva, bom para a estética da City londrina, aqui mais difícil de enrolar. Enfim, ontem ainda estava bom tempo e aproveitei para me deslocar aos cenários da Batalha do Bussaco, travada em 27 de Setembro de 1810, ouvindo o ronronar hipnótico, não dos velhos moinhos que por lá subsistem, mas sim o dos rotores das torres eólicas. Tudo calmo e pacífico, onde decorreu a complicada batalha, vitória táctica anglo-lusa que não foi suficiente para impedir o saque de Coimbra e outras tropelias até que o voo da águia terminou a sul, nas Linhas de Torres. Mais um sonho de poder que por ali ficou, antes de congelar lá para os lados de Moscovo. Hoje, o turismo aproveita estes cenários de memória e nem sempre é fácil escutar os ecos do som e da fúria que por ali atroaram.

O Outono também convida à leitura, naturalmente, e facilita a escrita. Recordo-me da pergunta que uma colega me fez, há anos, quando me viu adquirir um livro numa papelaria – Tem tempo para ler? Na época não tinha muito, é verdade, e fui acumulando livros que só agora desvendo na íntegra. Volto a outros, regularmente, talvez não só pelo prazer da leitura e da novidade que ainda se consegue encontrar aqui e ali, mas porque assim revivo outros tempos e os seus sonhos, estivais ou tropicais, com ou sem pedras antigas. E os colegas em exercício têm tempo para ler?
Chove, as folhas caídas jazem espapaçadas no chão, a luz côa-se pelas portas do café-livraria onde estou, luz preguiçosa, quase como uma lembrança de outros dias. Passam pessoas apressadas, encolhidas, com os guarda-chuvas enfunados. Divago e pouco a pouco vejo-os transformados em velas de navios, vogo num mar de sonho, rumo à Ilha de São Brandão, onde encontrarei aquela que perdi.



