Machado é uma figura amplamente apoiada por círculos políticos norte-americanos. Os EUA têm historicamente alimentado – política, financeira e logisticamente – as oposições em vários países latino-americanos, com o objetivo de promover mudanças de regime convenientes aos seus interesses estratégicos e económicos. A Venezuela, rica em petróleo e politicamente resistente à influência de Washington desde Hugo Chávez, não foge à regra.
A escolha do Comité Nobel surge, assim, num momento particularmente delicado: Donald Trump ameaça “intervir” militarmente na Venezuela para “combater o narcotráfico”. Vai mais longe: pôs a cabeça de Nicolás Maduro a prémio, evocando a tradição dos caçadores de recompensas do Velho Oeste. Nada prova que Maduro esteja envolvido em redes de narcotráfico, mas isso pouco importa ao Presidente dos EUA, que não demonstra respeito pelas normas internacionais nem pelos seus adversários políticos.
Neste cenário, o Nobel atribuído a Machado dificilmente será lido como um simples reconhecimento moral. É também um sinal político que, direta ou indiretamente, legitima uma estratégia de confrontação externa liderada por Washington, potencialmente incluindo sanções, apoio a grupos insurretos ou mesmo intervenções militares.
O longo braço da política de golpes
A América Latina conhece bem este guião. Ao longo do século XX, os EUA estiveram envolvidos em inúmeros episódios de desestabilização política no continente. O golpe de Estado de 1973 no Chile – que derrubou Salvador Allende e abriu caminho à ditadura de Augusto Pinochet – contou com apoio direto da CIA e de setores da administração norte-americana.
Antes disso, em 1964, Washington apoiou ativamente o golpe militar que instaurou a ditadura no Brasil, fornecendo apoio logístico e político aos militares que derrubaram o presidente João Goulart. Estes são apenas dois exemplos de uma longa lista que inclui intervenções e manipulações no Panamá, na Nicarágua, em Granada ou na Guatemala.
Os métodos variam: ora apoio a militares locais, ora financiamento de grupos insurgentes ou campanhas mediáticas de desestabilização. O objetivo, porém, mantém-se constante – moldar os regimes políticos latino-americanos aos interesses estratégicos dos EUA.
Entre símbolo e instrumentalização
O prémio atribuído a María Corina Machado pode ser lido como um incentivo à resistência democrática, mas também pode ser interpretado como um selo de aprovação política a uma agenda externa, num momento em que Trump ameaça usar a força contra Caracas.
A questão central é se o Comité Nobel tem plena consciência da mensagem que envia ao premiar uma figura intimamente ligada a esta rede de interesses dos EUA. Se a intenção era valorizar a luta democrática, o gesto corre o risco de ser instrumentalizado e acabar por ser mais um episódio numa história longa de intervenções políticas disfarçadas de causas nobres.
Para já, o único mérito desta atribuição a Maria Corina Machado é fazer com que Trump engula a própria soberba sem poder refilar muito. Afinal de contas, a opositora venezuelana é uma “amiga”.




Grata pelo se texto, carlos Narciso.
O que sabemos hoje das motivações políticas do Prémio Nobel da Paz?
Verdade seja dita que também será dificil ao Comité definir as causas onde não há “ninhos de ratos” para desfazer e até anular.
Acresce que muitas destas figuras criadas como opositoras aos regimes autoritários, são candidatas à fama passando qualquer linha de decência. Porque a moralidade não é feita só de palavras, mas de acções.
Sim, é preciso fazer frente aos ditadores, mas se conluiados os pretensos incorruptos com outros ditadores, anulam-se as razões que justificam o mérito da acção.
Verificar a sanidade mental, primeiro, a estatura moral, depois, de quem se propõe ocupar um lugar de topo, isso sim, deviam ser critérios fundamentais rígidos impostos em qualquer país no acto das eleições.
Olhando o mundo que temos, os conflitos tecidos por interesses económicos, politicos, ou geoestratégicos (mesquinhos) percebemos que os “loucos” não deviam poder saltar fronteiras para atrapalhar a liberdade e o bem-estar dos povos nos seus territórios.
Parece que a ingerência se banalizou e não há leis internacionais que a travem.
É a falência total das Instituições.
Os atuais dirigentes políticos são uns toscos e Trump é o superlativo relativo dessa mediania intelectual. Mas não temos verdadeiramente nada de novo nas relações internacionais. Manda quem pode, sempre foi assim. Dantes o cinismo diplomático disfarçava, por vezes, a brutalidade. Agora não há subtilezas. Apenas brutos. A atribuição deste Nobel da Paz não faz sentido nenhum. A senhora é uma agente política local, não tem nenhuma relevância internacional e só existe porque tem amparo da CIA.
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