
Antes de se falar de ex-librismo, haverá que esclarecer o que significa “Ex-líbris”, respondendo desde logo ao título deste artigo. Perguntando-se tal ao “doutor” Google surge, gerada pela inteligência artificial, uma corretíssima definição:
Um ex-líbris é uma marca, geralmente uma vinheta ou etiqueta, colada no interior de um livro para indicar a sua propriedade, identificando o dono ou a biblioteca a que pertence. Literalmente “dos livros de” em latim, o ex-líbris pode incluir o nome do proprietário, um brasão, um desenho, um monograma e/ou um lema ou citação, funcionando como uma marca artística e de posse.
É exatamente isto que é um ex-líbris.
Assim, convém esclarecer, que muitas vezes a expressão é usada de forma errada, como sinónimo de emblemático. Efetivamente, quando se diz que o pastel de Belém é um ex-líbris de Lisboa ou a torre dos Clérigos, no Porto, um ex-líbris desta cidade, está-se a querer dizer que ambos são emblemáticos e permitem identificar a urbe a que pertencem.
De qualquer das formas não convém colocar um pastel de nata a marcar a posse de um livro, até porque depois as páginas ficam coladas com o saboroso creme, o mesmo sendo válido para a torre dos Clérigos do Porto, neste caso porque, depois, o livro não cabe na estante. Mas tal não impede que se crie um ex-líbris com um desenho de um monumento emblemático. Assim, se efetivamente não se encontrou qualquer ex-líbris ilustrado com o desenho de um pastel de Belém, foram encontrados vários com uma ilustração do baluarte de São Vicente, vulgarmente designado por Torre de Belém e também da anteriormente citada torre dos Clérigos.


Mas, obviamente não se poderá falar de ex-líbris sem se falar na afeição pelos livros, quer, desde logo, pela leitura dos mesmos, quer pela sua coleção. A isto chama-se bibliofilia (atenção não confundir com coisas esquisitas ou fetiches. Aqui recorre-se de novo ao dito “doutor” para a definição de bibliofilia – «Bibliofilia é o amor ou paixão pelos livros, especialmente edições raras, valiosas e antigas, e a arte de colecionar esses livros. A palavra combina os termos gregos biblion (livro) e philia (amor), descrevendo o colecionismo focado na beleza do livro como objeto de arte, sua edição, encadernação e tipografia.») Efetivamente, digo-o há muitos anos, um livro é património que se transmite e não algo descartável.
Em termos de experiência pessoal e falando na primeira pessoa do singular, a minha coleção dos livros começou ainda na universidade, onde, além das compras motivadas pelas necessidades letivas, algo que tendencialmente já desapareceu no presente (as bibliografias dadas aos alunos nos tempos que correm, na maior parte dos casos já estão on-line), altura em que cometia o “pecado” irreparável de assinar e datar a compra (e até outros piores, como sublinhar os livros com marcadores fluorescentes. E aqui um desafio aos meus leitores que já fizeram tal dislate: experimentem ler um livro sublinhado por vós há uma década e verão que discordam totalmente do que então sublinharam).
Mais tarde, quando iniciei a carreira como professor, na altura para lecionar História do Vestuário e da Moda no IADE, comecei a constituir uma biblioteca relacionada com estes temas, que depois se desdobraria em várias especificidades, como Dicionários de Moda, Têxteis, Indumentária Militar, História do Vestuário em Portugal, História da Moda no século XX e, sobretudo, sobre uma criadora em particular, Gabrielle Chanel de seu nome.

Este projeto de coleção de livros levou à compra, não só de obras novas, mas também de obras usadas, procuradas e adquiridas em mercados, livreiros e alfarrabistas. Tal mudaria a minha ligação com os livros e, até, um novo respeito por estes, tendo recebido para marcar a posse dos livros que ia adquirindo um primeiro ex-líbris da autoria do arquiteto Segismundo Pinto, um dos mais importantes, se não o mais importante criador contemporâneo destas marcas de posse. Daqui derivaria também o interesse pelos ex-líbris, quer como utente (o que usa ex-líbris), quer como colecionador.
Registe-se que existe no nosso país uma academia dedicada ao estudo destas marcas de posse, a Academia Portuguesa de Ex-Líbris, no presente presidida pela doutora Ana Cristina Nunes Martins, com um número significativo de académicos, normalmente colecionadores, criadores e investigadores e que existe uma vasta bibliografia sobre o tema, sendo de destacar o Manual de Ex-librística de Fausto Moreira Rato, onde foram colhidos vários elementos que aqui se publicam.

As técnicas usadas podem ser as mais variadas, da calcogravura, com matriz em metal e vários processos possíveis, como o talhe-doce, ponta-seca, mezzotinta, mas também a utilização de ácidos, como a água-forte ou a água-tinta; a xilogravura; a linoleogravura; a serigrafia; a litografia e outros.

Mais recentemente começa-se a vulgarizar o desenho assistido por computador e é, até, possível “gerar” ex-líbris através da inteligência artificial.


Muitos importantes artistas dedicaram-se ao ex-líbris, nomeadamente internacionais como Pablo Picasso, Salvador Dali. Cite-se um caso muito particular, o do arcebispo Bruno Bernard Heim, autor e iluminador dos brasões de armas dos papas João XXIII, Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II, aqui representado com o ex-líbris que realizou para um português, o marquês de Lara.

Também muito relevantes artistas nacionais, como Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros, Raúl Lino, António Lima, Ruy Palhé, Aulo-Gélio, Eduardo Dias Ferreira, David Fernandes, Segismundo Pinto, José Colaço e tantos outros, aqui injustamente esquecidos, criaram ex-líbris.
Os ex-líbris podem ser pessoais ou de organismos ou instituições. Enquanto marcas de posse pessoais têm normalmente elementos ilustrativos relativamente ao proprietário, como a profissão ou até o grau académico e veja-se o caso do ex-líbris do antigo primeiro-ministro português, Adelino da Palma Carlos, indicando que tinha o grau de doutor, já que é encimado por uma borla doutoral.

Muitos ex-líbris incluem a divisa que o seu detentor escolheu para si, o seu mote de vida, caso do ex-líbris do escritor Almeida Garrett, com a divisa «Sempre Fixa».

Além da divisa, embora mais sendo mais raro, estas marcas de posse podem ter a empresa do utente (o símbolo pessoal), caso do ex-líbris utilizado pelo Rei Dom Manuel II, onde, além das armas de Portugal, apresenta o corpo da sua empresa, a esfera armilar, bem como a divisa «Depois de Vós, Nós» divisa que era a da casa de Bragança. Ou o caso de um ex-líbris do próprio autor deste texto, com o arminho por corpo da divisa, simbolizando pureza, integridade moral e honra; por erva: as silvas, que representam a vida, no que tem de bom, o fruto doce, mas também de mau, os espinhos e a divisa autoexplicativa «Le bien me plaît».


Há ainda a referir os ex-líbris criados especificamente para determinados acervos dedicados a temáticas específicas, caso da coleção anteriormente referida com a temática relacionada com a criadora de moda Coco Chanel, mas também relacionados com a moda em geral, como sucede com um curioso ex-líbris desenhado por José Manuel Pedroso da Silva, para a biblioteca de história da moda e do vestuário do autor deste artigo, que apresenta a concha do molusco Bolinus brandaris, fulcral para a produção da cor púrpura ao longo da História, a cor mais prestigiada para a indumentária no tempo dos impérios romanos do Ocidente e do Oriente.

Mas haverá ainda muitas outras hipóteses, por vezes relacionados com os gostos ou consumos culturais, ou não, do utente, chegando-se até um não despiciendo ramo dos ex-líbris, o dos ex-líbris eróticos.


Muitas outras características de ex-líbris poderiam aqui ser citadas, pela raridade, pela temática ou pela forma.
Importa agora manifestar uma preocupação, que deriva da perceção, não só como docente, mas até como pai, de que os jovens do presente se vão alheando quanto ao valor patrimonial dos livros, que já nem como ferramenta de trabalho consideram úteis. Tentando sensibilizar e atrair jovens alunos para esta matéria, foi feita há já vários anos, pelo autor do presente artigo, uma sensibilização junto dos mesmos, que levou ao desafio, a um grupo de alunos de Realização Plástica do Espetáculo da Escola Superior de Teatro e Cinema, para voluntariamente criarem ex-líbris para os seus próprios livros.
Os discentes corresponderam ao que lhes era pedido e, daqui, resultou um conjunto bem curioso de ex-líbris originais, registando-se que alguns têm mesmo uma qualidade plástica relevante.


Como se vê, há todo um mundo relativo aos ex-líbris, mas, mais do que falar destas pequenas marcas de posse, importa referir que estas só fazem sentido enquanto houver livros, o que leva a que, por fim, lance um desafio aos meus pacientes leitores: criem um ex-líbris para os vossos livros.



