VERGONHA NO AEROPORTO DE LISBOA

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Gostei de ler a prosa lúcida e corajosa de Jorge Chichorro Rodrigues em defesa dos estudantes guineenses. Estou certo de que ela traduz o sentimento da esmagadora maioria do povo português, que não se revê nos episódios vergonhosos protagonizados pelas autoridades.

O que aconteceu foi inaceitável: 34 jovens estudantes da Guiné-Bissau, com visto devidamente emitido, foram retidos no aeroporto de Lisboa durante dois dias, tratados como suspeitos e não como estudantes. Dormiram no chão, passaram fome, tiveram sede, e ainda pairou sobre eles a ameaça de serem reenviados para o seu país, como se não tivessem qualquer dignidade ou direitos. Uma mancha para Portugal e um drama que ficará registado na memória coletiva dos guineenses.

A posição de Jorge Chichorro Rodrigues tem um peso especial. Ele conhece a Guiné-Bissau. Viveu connosco no ano letivo de 1982-83, foi professor de Português no nosso país e conquistou a amizade e o respeito do povo guineense pela sua humildade, serenidade e espírito cordial. Na altura, como recorda, encontrou alunos humildes, ávidos de aprender, determinados em se instruírem e em aprofundar o domínio da língua do antigo colonizador. Alguns trabalhavam e estudavam ao mesmo tempo, sob o sol inclemente de uma jovem nação que lutava por se afirmar. Ele próprio confessou: “todas as esperanças estavam vivas e deixei-me contagiar por aqueles que, de forma entusiasta, tiravam apontamentos nas aulas, aprendiam gramática e liam textos literários que os empolgavam”.

Por isso, não admira o seu profundo desgosto ao assistir às notícias sobre os estudantes retidos em Lisboa. Como escreveu: “com grande desgosto assisti às notícias da televisão, até se chegar ao momento em que finalmente prevaleceu o bom senso e os estudantes, à exceção de um, puderam entrar em Portugal para seguir os seus estudos. Como dizia um cartaz erguido por dois guineenses: ‘São apenas estudantes’. Sim, não eram terroristas. Não vinham ameaçar o Estado português”.

Estas palavras desmontam a retórica venenosa e perigosa que a extrema-direita, liderada por André Ventura e pelo CHEGA, tenta normalizar em Portugal: a criminalização do estrangeiro, a estigmatização do africano, a demonização do estudante que procura apenas aprender. Lamentavelmente, setores do atual Governo, refém dessa extrema-direita em nome de cálculos eleitorais, preferiram o silêncio cúmplice à indignação pública.

É por isso que o gesto final de Jorge Chichorro Rodrigues foi tão poderoso quanto incómodo para os racistas e xenófobos: “Sejam bem-vindos, nossos irmãos e irmãs da Guiné-Bissau”.

Tal como ele, nós, guineenses, também exigimos respeito. Portugal não pode permitir que atitudes desumanas e discriminatórias se tornem regra. A nossa juventude não é inimiga. Os nossos estudantes não são ameaça. São pontes vivas entre os dois países, entrelaçando histórias, culturas e futuros comuns.

Que este episódio sirva de alerta e que nunca mais se repitam situações que envergonham não apenas os guineenses, mas também os portugueses que acreditam na solidariedade, no humanismo e na fraternidade lusófona.

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