ESPANHA PROTESTA, PORTUGAL CALA

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A edição de 2025 da Vuelta a España ficará marcada não apenas pelo ciclismo, mas sobretudo pelos protestos políticos. A presença da equipa Israel-Premier Tech transformou a corrida num palco de contestação à política de Telavive e ao genocídio em curso na Faixa de Gaza.

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As manifestações são de tal dimensão que já obrigaram a alterar o próprio curso da prova. Em Bilbao, na 11.ª etapa, manifestantes pró-Palestina bloquearam a chegada e obrigaram a organização a encurtar o percurso, registando tempos a três quilómetros da meta sem vencedor declarado. No contrarrelógio por equipas, ativistas ocuparam parte do trajeto e atrasaram diretamente a formação israelita. E na mítica subida ao Angliru, a fuga dos ciclistas foi interrompida, com a polícia a deter doze pessoas.

Perante a sucessão de incidentes, o diretor técnico da Vuelta chegou a sugerir que a equipa israelita abandonasse a competição, e o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha, José Manuel Albares, declarou-se favorável à exclusão. O caso deixou de ser apenas uma questão de desporto para se tornar num debate político de grande visibilidade internacional.

Em Portugal, a realidade foi bem diferente. Também houve protestos durante a Volta a Portugal, tímidas vigílias em Lisboa, algumas iniciativas no Porto, alguns confrontos em Coimbra. Mas foram manifestações de pequena escala, sem impacto na corrida e quase sem eco mediático. Mais importante ainda: não houve qualquer reação institucional. Nem o Governo, nem a federação de ciclismo, nem autarquias se pronunciaram sobre a presença da equipa patrocinada em exclusivo por Israel.

A diferença é gritante. Em Espanha, os protestos são tradição: do 15M às greves gerais, há uma cultura de rua organizada, com movimentos sociais fortes e uma rede associativa ativa. A solidariedade com a Palestina está enraizada em regiões como o País Basco e a Catalunha, e a comunicação social dá a esses protestos uma visibilidade que amplifica a mobilização.

Em Portugal, ao contrário, o instinto é de resignação. As causas internacionais são vistas como distantes, “não é connosco”. A mobilização existe, mas dilui-se: pouco enraizada, pouco mediática e sem consequências políticas.

A Vuelta mostrou duas culturas políticas lado a lado. Em Espanha, a rua conseguiu influenciar diretamente um dos maiores eventos desportivos do mundo. Em Portugal, os protestos ficaram reduzidos a notas de rodapé. Entre o barulho espanhol e o silêncio português, fica exposta a diferença entre uma sociedade que encara a rua como espaço político permanente e outra que, mesmo se solidária, prefere guardar a indignação para si.

(NR: outros artigos sobre o genocídio do povo palestiniano: Arquivo de genocídio do povo palestiniano – Duas Linhas)

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