Encontrei, no tomo IV (nº 11, pág. 84) do Archivo Pittoresco de 1861, a reprodução, em desenho, do pórtico da antiga Gafaria de Setúbal, em cujo topo estava uma inscrição gravada, que, segundo o autor, «indica bem o destino do edifício».

Trata-se do conhecido versículo do livro do Antigo Testamento, Eclesiastes (1, 2): VANITAS VANITATVM OMNIA VANITAS, «vaidade das vaidades, tudo é vaidade!».
Não creio, sinceramente, que tal quisesse significar «o destino do edifício», mas, sim, a advertência de que a lepra poderia constituir excelente aviso perante a vontade humana de se envaidecer com múltiplos adornos e esbeltos cuidados para o seu corpo.

Esse portal acabou por ser conservado: chama-se O Portal da Gafaria e está situado entre os números 17 e 19 da Avenida Manuel Maria Portela (antiga Estrada de São João), em Setúbal; presume-se ter pertencido a uma leprosaria ali existente no século XIV.

Tão profunda é a mensagem da tal frase que a poderemos encontrar amiúde, mormente em edifícios ou ocasiões onde ela mais pertinente se antoje.
Em estudos e descrições da fachada do Palácio do Infantado, em Guadalajara (Espanha), por exemplo, dá-se a entender que aí existe (ou existiu) essa frase; dela não temos, todavia, qualquer imagem.
Mantendo-nos no país vizinho, há um outro testemunho deveras curioso, porque devido a uma disputa familiar: é que a frase está consignada num escudo heráldico no pátio interior do Palácio de la Isla (Cáceres). O palácio fora construído no século XVI por um ramo da família Blázquez-Mayoralgo, não reconhecido pelo ramo da família que estava na cidade desde o período da chamada Reconquista Cristã. Daí, as duas inscrições: lê-se numa «Moderata durant. Nobilitat animus non acta parentum» (As coisas moderadas duram. Não são os actos dos parentes os que enobrecem o espírito); e, noutro escudo, «Vanitas vanitatum et omnia vanitas».

Fiquei também a saber que houvera no Norte da Europa, nos séculos XVI e XVII, o movimento artístico Vanitas, com o objectivo de privilegiar a pintura de naturezas-mortas, «para simbolizar a fugacidade da vida e a futilidade das coisas mundanas, contrastando a perfeição da arte com a brevidade da existência humana»! (Fig. 3 e 4).

Aliás, no Museu Nacional de Arte Contemporânea, ao Chiado (Lisboa), apresentou Francisco Tropa, em 2004, a instalação Vanitas e vanitatis umbra, em que «partindo do conceito bíblico, simbólico e pessimista da vacuidade do mundo terreno, Vanitas vanitatum, et omnia vanitas, da sua característica efémera e passageira, o artista recolocou essa ideia numa perspetiva de presença e entendimento do mundo real, no sentido da procura do simbolismo na superfície das coisas e não na sua transcendência». Palavras bonitas, convenhamos!…
Sim, em clave negativa, assim poderá conceber-se; mas reconhecer-se-á que, para entrada duma leprosaria, poderá não ser o melhor agoiro…
O Hospital-Colónia Rovisco Pais
Portanto, se, ao deparar com o desenho, eu senti vaidade, e, daí, ter pensado em redigir esta crónica, a razão reside no facto de me ter recordado duma circunstância única na minha vida: o de me haver sido proporcionado ter ao colo o bebé de um casal de leprosos. Uma sensação – acredite-se! – única, como Homem, como Historiador e como Jornalista.
Fiquei vaidoso também porque me encantara, nesse Verão de 1973, o ambiente sereno da leprosaria Dr. Rovisco Pais, na Tocha (Cantanhede). Sabia dos livros de História quão vilipendiados eram os leprosos na Idade Média. Castigo de Deus devia ter sido o facto de sua pele estar pustulenta, numa chaga viva, a determinar a expulsão do convívio de familiares e amigos. Leproso era infame, pária, indigno… Por isso, ao poder eu próprio conviver com eles, verificar que ali eram tratados como gente, tinham os seus espaços, a sua horta, e até podiam constituir família – foi júbilo e contentamento.

E, ao ir à Casa da Criança e poder ter ao meu colo um dos bebés de uma família de leprosos fiquei realmente vaidoso. Vaidade, esta, que eu senti, a nada ter a ver com o letreiro que na Gafaria de Alcântara se colocou.

Hoje, essa Colónia-Hospital designa-se Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro – Rovisco Pais e tem, inclusive, um Núcleo Museológico (inaugurado a 7 de Setembro de 2021), a mostrar como foram os antigos tempos, aqueles que eu pude ver em Agosto de 1973 e descrevi em reportagem da página inteira, a página 4 do Jornal da Costa do Sol, edição de 20 de julho de 1974, porque, naturalmente, me foi proibida a sua divulgação em 1973. Fui, então, amavelmente acompanhado, em primeiro lugar, pelo médico de serviço, Dr. José Augusto da Mota Arnaut, e, depois, pelo vice-administrador, Valentim José Pereira.
Guardo da visita um sabor muito especial. Daí que o desenho do Archivo Pittoresco me haja ‘obrigado’ a partilhar agora essa emoção.
(NR: outros artigos do mesmo autor: José d’Encarnação, autor em Duas Linhas)



De: Maria Alegria Marques
7 de setembro de 2025 23:10
Caríssimo Encarnação
Agradeço-te muito o envio da tua crónica sobre “a vaidade das vaidades…” e as referências à Tocha e à sua leprosaria e, sobretudo, à tua experiência nesse lugar.
Imagino – se é que consigo – o que deve ter sido ter nos braços uma criança nascida de dois “leprosos”, os estigmatizados durante tantos séculos. Deve ter sido, de facto, uma sensação muito única e, por isso, muito marcante. Lembrei-me, a propósito, de uma ida (na verdade, duas) de meus pais ao mesmo lugar. Certo dia, alguém, a quem tinha sido diagnosticada a possibilidade de, eventualmente, estar a sofrer de lepra pediu, ao meu pai, se ele lhe fazia o favor de o levar ao Rovisco Pais, pois não havia transporte para lá e a pessoa (que ainda é viva, nos seus noventa e tantos anos) não era abonada, a ponto de poder pagar táxi. Meu pai acedeu e lá foram quatro: o eventual leproso, a mulher, e meus pais. Ele ficou, foi-lhe feito o necessário ao apuramento da veracidade da hipotética doença e, felizmente, não tendo sido confirmada, passados dias foi tempo de o meu pai repetir a viagem, a ir buscar o indivíduo. Não eram já os tempos áureos desse estabelecimento de saúde, mas recordo que meus pais – que não o conheciam -, chegaram admirados com o que tinham visto: a ordem e os cuidados do espaço e com as pessoas.
Pessoalmente, apenas conheci o espaço durante a COVID, quando uma sobrinha de meu marido lá esteve internada, a recuperar de uma intervenção cirúrgica, na sequência de um acidente provocado pelo cão de sua mãe. Também fiquei impressionada com a largueza e a qualidade dos espaços.
Hoje, os espaços lá continuam e os cuidado são de referência. Mas nem todo o espaço está aproveitado e cuidado. Há uma parte, das casas isoladas (que, creio, seriam moradas de famílias como a que conheceste) que está abandonada. Por coincidência, passámos lá, ontem, em regresso da Figueira, e reparámos no caso e como dá pena, ver um espaço nobre e de uma carga histórica como aquele é, estar assim, abandonado. Mas é a sina de muitos e bons espaços do nosso país.
Fico com a tua crónica gravada, como tenho tantas outras, para reler – ou deixar para ser lida.
É uma doença terrível que persiste um pouco por todo o lado, mas principalmente em zonas onde as populações não têm acesso a cuidados médicos. A minha experiência com leprosos remonta aos anos 99, 2000, quando palmilhei o norte do Congo, nas fronteiras com o Sudão e República Centro Africana, entre outras coisas para acompanhar o trabalho de três missionários combonianos portugueses. Vi gente mutilada à conta da lepra. E vi também o cuidado que esses missionários lhes prestavam, sem medo de contágios.