Assim, numa cidade com vetustas tradições como Abrantes, ali mesmo à beirinha do rio Tejo, o Município zela por que alterações na estrutura urbana sejam devidamente acompanhadas por equipas de arqueólogos.
Assim aconteceu, quando se previu a realização de obras nas antigas instalações da PSP, propriedade do Município, imóvel localizado entre a Rua Grande (antiga Rua Santos e Silva) nºs 6, 8, 10, 12 e 14, e a Rua Maria de Lourdes Pintasilgo (antiga Rua do Brasil), n.ºs 38, 40, 42, 44 e 46, estando assim dotado de duas frentes de rua. Haveria, por conseguinte, a possibilidade de, em seu lugar, mantendo os três pisos acima do solo. aí serem construídos 10 fogos, de tipologias T1, T2 e T3.

O imóvel, conjuntamente com mais de quarenta outros do centro histórico de Abrantes, a maioria deles testemunhos singulares da arquitetura civil de há mais de um século, foi, em 1977, classificado como de valor concelhio, tendo posteriormente esta classificação sido convertida em «de interesse municipal». nos termos nº 2 do art.º 112.º da Lei n.º 107/2001, de 8 de setembro.
Propôs-se, por isso, a adopção de numa filosofia de intervenção mínima, considerando que deveriam ser conservados os elementos que se apresentem em bom estado, com respeito pelas marcas do tempo e estereotomia, designadamente as fachadas e escadas em pedra. As paredes exteriores, guarda-corpos e serralharias seriam recuperadas, bem como as paredes-mestras interiores
A intervenção proposta correspondeu, por conseguinte, à demolição interna quase total, com a manutenção geral das volumetrias e das fachadas sobre a Rua Grande (principal e lateral) e a remodelação interna integral, incluindo alterações às escadas preexistentes. As fachadas sobre a Rua Maria de Lourdes Pintasilgo são objeto de recomposição, preservando-se dois vãos.
As descobertas
Nos trabalhos prévios, foram realizadas cinco sondagens arqueológicas, identificando-se estruturas negativas do tipo silo em todas elas, com cronologia maioritariamente medieval.
Identificaram-se três cisternas e, dada a magnitude da afetação no interior do edifício, efetuaram-se 22 sondagens parietais, tentando efetuar um registo exaustivo do tipo construtivo do aparelho construtivo.
Na sequência dos trabalhos de demolição, descobriram-se, de facto, elementos deveras interessantes do ponto de vista da história quotidiana, tais como inscrições dos carpinteiros nos forros em madeiras, antigos documentos dos alunos da escola industrial ali implantada em tempos.
No entanto, a surpresa maior ocorreu quando, no passado dia 28 de Agosto, ao demolir-se a parede de acesso à sala do teto em estuque do piso 1, se encontrou um papel manuscrito intacto. Estava no interior de um espaço vazio entre a argamassa e a pedra, dando a sensação de ter sido ali depositado para cair no esquecimento ou, porventura (agrada-nos agora pensar assim), para que, tantos anos volvidos, alguém ficasse estupefacto ao achá-lo!
De imediato se pediu a um paleógrafo de renome, Saul Gomes, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que nos ajudasse na decifração do que ali se encontrava escrito e tão ciosamente – ao que parecia – ali fora escondido, qual mui relevante tesouro. Mui gratos lhe estamos pela prontidão com que cedeu ao nosso pedido


Outro papel resguardava o manuscrito e nele se podia ler, em letra mui cuidada e escrita a tinta com caneta de aparo «AO Sr. Meu Pay». Que teria uma filha ou um filho a dizer a seu pai, para assim ali estar escondido? E quem o terá escondido – o remetente ou o destinatário?A leitura do Doutor Saul Gomes é a seguinte:

Questões familiares, portanto. Rendas em atraso, encomenda de coelhos, questões da dízima…
Escritor imaginativo deste manuscrito faria um romance. Aliás, como acontece amiúde. Ou melhor, dizem os autores que acontece, para darem maior credibilidade ao que escrevem. Só que, neste caso, não é manuscrito inventado: é manuscrito bem real, simplesinho, mas a ocultar, porventura, um drama qualquer. Caso assim não fosse, que razão haveria para o esconder assim num buraco de parede?
(artigo em co-autoria com José d’Encarnação)




De: maria helena coelho
Enviada: 12 de setembro de 2025 16:27
Agora até tinham de entrar coelhos nos documentos em que te deténs, ou seja, “saiu coelho de um buraco de casa”!…
É muito interessante. Faz-me lembrar as cartas da Madre Javouhey, fundadora da Congregação de S. José de Cluny, que publiquei, a pedido das Irmãs. Ela escrevia coisas muito engraçadas, como “As irmãs rezem muito pela Irmã Rosa que está muito doente com gota. Amanhã vou falar com o nosso prior, que preciso muito de um burro que me leve as couves à vila, que eles estão muito precisados delas” Era assim que ela escrevia. São 4 volumes.
Abraços a todos.
Teresa Mascarenhas.
Bem hajas, Teresa, pela oportunidade da comparação. E esses recados da Madre decerto não ficaram escondidos, não, porque tiveste oportunidade de os dar a conhecer. E, já agora, não sejas modesta, conta aí: onde é que esses recadinhos estão publicados?
Boa noite aos autores do texto, bem interessante, por sinal.
Começo por dizer que o aproveitamento da fachada exterior de um imóvel antigo (manter a traça ?) e outros elementos antes de remodelar por dentro, é um princípio que me agrada: dignifica o esforço e memórias anteriores e poupará capital, imagino.
No entanto, como vemos aqui, se não fosse uma demolição ou esventramento do interior, não se teria encontrado a misteriosa carta-bilhete-missiva que, apesar de estar num estilo delicado, parece que tem garras afiadas.
De facto precisávamos de Camilo por aí, para pegar no assunto e em três tempos compor um romance exemplar a partir desse manuscrito verdadeiro. E estava a pensar nele quando me ocorreu uma ideia.
“Meu amo e Senhor” dizia-se a uma personalidade em considerável lugar numa hierarquia e demonstrava uma forma de vassalagem, havendo negócios comuns, mas aqui a signatária (?) é que dá as ordens com certa desenvoltura.
Seria o destinatário o pai, que sempre inspira mais respeito, ou um marido de quem estivesse apartada por concordância de ambas as partes e que só a visitasse quando fosse preciso?
As minhas desculpas, mas é tentador ousar…
A carta é dirigida ao pai, Helena: «Meu Senhor e meu Pay».
E tens razão: alguém como Camilo faria daqui um romance.
Muito grata pela explicação.
Vi o “Pay????”, mas ficaram-me tão vincadas 1 -a intrigante forma de quatro pontos de interrogação; 2 -a sugestão sobre a ida dele “lá” se antes não fosse preciso, que devo ter apagado da cabeça esse grau de parentesco…
De: Cristina Neves
Enviada: 13 de setembro de 2025 20:17
Que interessante descoberta! Escondido ou perdido, agora é pôr a imaginação a trabalhar! ☺️
De: Elisa Silva
Enviada: 12 de setembro de 2025 19:44
Descoberta mais admirável, tanto para quem por ela é responsável, como para quem lhe deu origem, não há!
Realmente não é todos os dias que tal acontece!
Ana Leal Faria
Enviada: 12 de setembro de 2025 18:54
Muito obrigada! Foi um gosto ler o interessante texto que também me deixou a sonhar com um drama escondido de desavenças familiares….
De: Regina Anacleto
Enviada: 12 de setembro de 2025 18:31
Fiquei curiosa: qual a razão que levaria a emparedar um escrito que, à primeira vista, parece inócuo? O que se pretendia escrever? Será uma linguagem cifrada?
Que no Palácio Ceia, onde funciona a Universidade Aberta, no gabinete do Reitor (então o Doutor Armando Rocha Trindade), na parede que ficava nas costas da cadeira dele, tinha aparecido o esqueleto de uma pessoa que havia sido emparedada, sabia. Que, por altura das Invasões Francesas tinham sido emparedadas joias, pratas, barras de ouro, também sabia. No Sarzedo, quando na casa solarenga dos Amorins aconteceu, no início do século XX, um grande incêndio, pelas paredes escorreu ouro.
Mas um texto desse teor. É intrigante.
De: Cesar Correia
Enviada: 12 de setembro de 2025 17:54
Surpreendente e muito interessante!
De: José Luís Madeira
Enviada: 12 de setembro de 2025 16:45
Olhem que delícia!
A vida de todos os dias ali escondida à espera de ser revelada!
E com muita actualidade!
De: maria helena coelho
Enviada: 12 de setembro de 2025 16:27
Agora até tinham de entrar coelhos nos documentos em que te deténs, ou seja, “saiu coelho de um buraco de casa”!…
Interessante e ao mesmo tempo intrigante um papel escrito com uma caligrafia que diríamos artística, escondido na parede de uma casa, por alguém que, nos princípios Sec. XVIII, o escreveu ou recebeu.