«A Lara Bacelar encantou-se na noite passada, depois de uma longa espera, sem que saibamos qual a sua ligação ao mundo». Assim me escreveu a Maria, explicando-me que poderá ter sido a doença das vacas loucas a destruir-lhe as ligações nevrálgicas/neurológicas que a faziam corpo activo e presente. Faleceu, depois de muitos meses sem dar sinal de conexão com a vida. Encantou-se.
– “Encantou-se”, Maria? Que queres tu dizer com isso?
– No Nordeste do Brasil, quando alguém morre, diz-se que se encanta. Passa a ser pessoa encantada, como as nossas princesas encantadas. Adoro essa ideia. Pensar que minha mãe está encantada e que me vê quando estou na casa dela é maravilhoso!
Guarda o léxico brasileiro, como é sabido, muitas palavras quotidianas herdadas de tempos idos, verdadeiros fósseis envoltos de eternidade. Ao chegarmos a um aeroporto, buscamos aí as bagagens depositadas numa esteira rolante e não no tapete; ‘esteira’ é muito mais nosso, próximas das nossas raízes, da palavra latina storea… E, sabe-se, é nos ambientes concretos, rurais que de ‘esteira’ se fala.
Tanta vez que há referência às vetustas histórias das mouras e das princesas encantadas. Dormem um sono eterno, que só por milagre junto delas chegará o príncipe capaz de as desencantar. O beijo que há milénios está a tardar!
E porque será que descobrimos, um dia, quantas histórias estão ligadas entre si, qual invisível cordão umbilical transmissor de Sabedoria?
«Quando se ama uma flor plantada numa estrela, sabes, é um encanto, à noite, olhar para o céu: todas as estrelas estão floridas!» – explicava o Principezinho à Raposa.
Um encanto.
Encantamento. Uma outra dimensão, de que, afinal, tão poucas vezes nos apercebemos.
Agora, foi o encantamento da Lara Bacelar. Um murro no estômago, porque diariamente se esperava um milagre. Os que de perto com ela conviveram poderão aperceber-se, agora, que o milagre foi outro: acutilante, eloquentemente loquaz na branca suavidade do silencioso encantamento.




De: maria helena coelho
28 de setembro de 2025 13:47
Partilho o teu sentimento de encantamento pela perda de uma vida achada na vida do cosmos.
Caro amico José d’Encarnação, abbiamo letto con profonda commozione la tua nota sulla scomparsa di Lara Bacelar, colpiti soprattutto dalla trasfigurazione della morte in incantamento, come la Principessa della fiaba che attende il risveglio dal bacio del misterioso Principe che un giorno arriverà da lei.
E’ un modo incredibile, straordinario, poetico per attenuare il dolore di una scomparsa tanto assurda e misteriosa nelle sue cause.
A te e a tutti coloro che l’hanno conosciuta e stimata, vada il nostro abbraccio affettuoso e consolatorio.
Eugenia Serafini e Nicolò Giuseppe Brancato da Roma
Bem hajam, amigos Eugenia e Nicolò!
De: M. Conceição Lopes
Enviado: 29 de setembro de 2025 10:59
Pois é,
Quando encontramos o vocábulo encantamento para a partida não há retorno. É esse o termo; esse mesmo.
Guimarães Rosa, no discurso de posse da Academia Brasileira de Letras disse: “A gente não morre, fica encantado”. Ele é o mesmo homem que disse que Tudo o que muda a vida vem quieto no escuro, sem reparos de avisar.
Ainda bem que também adoptou o termo; afinal é só uma partida para outra dimensão.
Um pouquinho da ligação com D. Sebastião:
Há quem defenda que O fenómeno do “encantamento” poderá estar ligado à lenda do rei D. Sebastião, que desapareceu em Alcácer-Quibir. A crença de que ele estava “encantado” e voltaria para salvar Portugal criou uma forte tradição de esperança e de crença num retorno milagroso. Essa crença espalhou-se pelo Brasil, particularmente no sertão nordestino, onde D. Sebastião jaz encantado, na Pedra do Reino de S. José de Belmonte, na Paraíba (local fantástico).
De: Jacinta Bugalhão
Enviada: 27 de setembro de 2025 19:21
Que grande tristeza meu amigo…
De: M. Conceição Lopes
Enviada: 27 de setembro de 2025 19:16
Muito obrigada. É muito lindo o que escreveu.
Comovi-me
Já tinha escrito ontem um texto encantado com este encantamento, mas por algum detalhe que me escapa agora, voou…
Talvez a Lara Bacelar, e aqueles que amamos ainda, mas já partiram, também tenha voado para uma dimensão onde as estrelas dão flores. O encanto desse brilho que fica, mesmo depois de morrerem as estrelas, será semelhante ao brilho que emana do nome das pessoas boas que vão morrendo.
Talvez não morram… Afinal morremos nós todos os dias por um desgosto, para ressuscitar no próximo perante uma centelha de esperança.
Agora que ouvi – pela primeira vez – “encantou-se” para falar de morte, soa-me mais a uma transmutação (pelo cansaço de um estado) numa entidade diferente, mais leve e certa da redenção de toda a Humanidade.
É um texto-poema de encantar, José d’Encarnação. Muito grata.
Ninguém aqui vai morrer, vamos todos hastear asas para um voo até um Paraíso qualquer.
Os que merecem, é claro…
Bem hajas, Helena! É isso mesmo!
De Eugenia Serafini
03/10/2025
Caro José, sono commossa e onorata.
LA storia della cara studiosa Lara mi ha colpito molto per la crudeltà di tanta sofferenza, tuttavia l’immagine della fanciulla INCANTATA mi dato un appiglio di sollievo, un risvolto di sensibilità nel fermarsi di un TEMPO SOSPESO, IN ATTESA DEL RISVEGLIO DEL BACIO.
DUNQUE L’AMORE TRIONFERA’ SULLA MORTE!
Un abbraccio forte alla famiglia e a tutti coloro che l’hanno stimata.
Eugenia Serafini 💐
De: Ana Freitas
9 de outubro de 2025 20:10
Muito obrigada pelo seu “Encantamento”! Tão belo quanto amplo. Vai da polissemia das palavras cá e além Atlântico até à dor da morte e seu eufemismo pelo encantamento. Bonita sim, esta ideia.