HISTÓRIAS DOS ROQUETE

A família Roquete é das mais antigas em Alcabideche e um dos seus membros, Carlos dos Reis Roquete, apresentou um livro com título deveras curioso: Os Enigmáticos Roquetes que também Eram Santos e os Populares Ceguinhos Cartaxinhos e Rolas.

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Um dos mais curiosos antepassados dos Roquete é o frade José Inácio Roquete. Tem o frade nome de arruamento em Cascais e foi, sem dúvida, um dos vultos eminentes da cultura portuguesa de finais do século XVIII e primórdios do XIX. Por ser oriundo de Alcabideche – onde nasceu em Junho de 1801, filho de António dos Santos Roquete, proprietário e lavrador que exerceu várias vezes o cargo de vereador da Câmara Municipal de Cascais – propus-me em tempos a preparar o respectivo verbete para o Dicionário Histórico-Biográfico da Academia das Ciências de Lisboa, de que o frade fora sócio correspondente: eleito, a 23 de Janeiro de 1850, para a Classe de Ciências Morais, Políticas e Belas Letras.

Um código do bom tom!

Estava, porém, bem longe de imaginar quanto me ilustraria essa pesquisa. E, ao deparar, por exemplo, com o livro, de sua autoria, Codigo do Bom Tom ou Regras de Civilidade e de Bem Viver no XIXº Século, não resisti a partilhar a inesperada riqueza informativa que dele dimana.

Apresenta-se o autor como cónego da Sé Patriarcal, professor de Eloquência Sagrada no seminário de Santarém, Cavaleiro das Ordens de Nossa Senhora da Conceição em Portugal e da Rosa no Império do Brasil e Sócio Correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa

Na advertência inicial, o autor explica que se imagina, no livro, «um gentil-homem que, saído de Portugal em 1834, com dois filhos de menor idade, órfãos de sua mãe, os quais mandou educar em França e a quem leva para a pátria depois de 10 anos de ausência. Como remate da desvelada educação que lhes dera, ensina-lhes não só tudo o que pertence à civilidade e cortesia, mas em suas instruções dá-lhes muitos conselhos saudáveis para bem viverem com os homens, e não só em Portugal se não em França».

Em relação a esta «nova edição» – que se faz depois de ter havido uma 1ª em 1845, seguida de outras três sem alteração, esta, de 1867 é a quarta – acrescenta que nela se «entremearam várias anedotas chistosas que dão amenidade ao estilo didáctico do livro». Aliás, o frade escolheu para epígrafe do volume a frase do escritor romano Cícero (Sobre a Adivinhação, 11, 4):

«Que maior e melhor serviço podemos fazer à República do que ensinarmos e instruirmos a mocidade?».

É edição «corrigida e consideravelmente aumentada com quatro estampas coloridas», publicada pelos Livreiros de Suas Majestades o Imperador do Brasil e El-Rei de Portugal, J. P. Aillaud, Guillard e Cª, com sede em Paris.

No livro se apresentam as regras ‘do bom tom’, no que concerne a assuntos da igreja (baptizados, casamentos, enterros), do convívio social (bailes, festas de aniversários…), os mais diversos tipos de cartas (agradecimentos, pêsames, parabéns…), jantares e banquetes, viagens, estadas no campo… Enfim, um nunca acabar de recomendações sempre exaradas nesse ar paternal – aliás, a obra vem identificada como «instrução paternal a Teófilo e a Eugénia» – e explicando tintim por tintim porque se deve fazer assim e não deu doutra maneira.

Veja-se o caso dos convites para o que chamamos um «evento». Um bico d’ obra ainda nos nossos dias, porque:

  1. se usa amiúde o galicismo ‘ter lugar’ em vez de ‘realizar-se’;
  2.  põe-se o convite em nome de uma instituição, quando deve ser dirigido pelo representante dessa instituição que é quem tem o poder para convidar;
  3.  depois, diz-se que uma conferência é ‘às 21:00 h.’, quando, na realidade, ela está prevista para ser ‘a partir das 21:00 h’.

Pois o frade sobre tudo isso apresenta directrizes. Imaginar-se-á, de resto, só pela enumeração de alguns dos títulos, quanta lição encerra cada página e mesmo cada parágrafo desta obra, fruto de longa experiência.

Folheei-a aleatoriamente e parei no capítulo da «conversação em francês», porventura por mera curiosidade, dado que a língua francesa foi praticamente banida da nossa conversação actual. Deixo esta passagem, para aguçar o apetite:

«Esta recomendação é muito mais necessária em França. […] Sabem bem que é o país por excelência da espionagem e da delação. Que é esta a mola real de toda a administração, sem exceptuar mesmo a eclesiástica e que nada há dito em público que não seja sabido da autoridade a quem pertence. O nosso ditado fradesco detrás de um tinteiro está um frade é exactissimamente verdadeiro em França. Em toda a parte há uma espia. E daqui deveis concluir quanta reserva e precaução vos é necessária quando conversarmos em público».

A perspicácia do frade! Quem o diria, Frei José Inácio?!…

A origem do Arlequim

E também não se eximiu de adiantar, no final, algumas histórias piedosas, como a do Arlequim, onde conta como é que surgiu esta personagem carnavalesca.

Era uma vez um menino pobre mas muito diligente e educado de quem todos gostavam, numa escola de Bérgamo, em Itália. Quando chegava a época do Carnaval, alvoroçadamente, cada um dos meninos preparava a sua máscara. Os pais de Arlequim, assim se chamava o menino, não tinham posses para isso. Os colegas organizaram-se, então, e cada um trouxe de casa uma peça de pano, para que a mãe de Arlequim com eles fizesse trajo carnavalesco. Cada pedaço de sua cor, cada cor era um amigo.

E foi o sucesso que se imagina! De máscara preta, chapéu cinzento afunilado e rabo de coelho, espada de pau (a sua durindana!)…

Concluiu o Frade:

«Desde então ficou sendo Arlequim um dos ornamentos mais originais dos divertimentos do Carnaval; mas esqueceu-se que foi a amizade quem o inventou».

Diz-se em italiano: «Si non è vero è ben trovato», «Se não é verdade, está bem engendrado!».

2 COMENTÁRIOS

  1. Caro Professor
    Fui surpreendido por ter encontrado uma citação ao trabalho de pesquisa que realizei sobre os meus familiares. Honra-me aquilo que fez…
    Nunca mais falámos depois do verão de 2025, mas espero que tudo lhe esteja a correr bem. É sempre bom sentir que alguém que não nos deve nada tem atitudes simpáticas para com a nossa pessoa. Bem haja!
    Um abraço amigo
    Carlos Roquete

  2. Olá, Carlos!
    Chegou no tempo certo, porque falei há dias com o presidente da Junta, a fim de encetarmos as diligências no sentido de se proceder à publicação do seu livro. Quando tiver a versão definitiva, se não se importar, envie-ma, que eu entrarei em contacto com o presidente.
    Além desse texto que leu, há um capítulo num dos meus livros sobre o seu antepassado dos moinhos de vento: «Cascais – Paisagem com Pessoas dentro» p. 152-159.
    Abraço!

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