UMA IGREJA INCOMUM

Na publicidade oficial sobre a igreja de S. Pedro das Águias, sita na Granjinha (freguesia de Paradela e Granjinha, concelho de Tabuaço), consigna-se: «Esta é, indubitavelmente, uma das igrejas mais emblemáticas do Douro Sul, recuperada entre 1953 e 1954 pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Incomum na sua disposição. Incomum na riqueza e variedade do seu trabalho escultórico, concentrado no portal lateral e na fachada voltada para o penedo. Incomum ainda pela sua fundação lendária, associada à história de D. Thedon e D. Rausendo, dois cavaleiros da Reconquista Cristã, e à mártir princesa Ardínia, que, por amor a D. Thedon, trocou a religião muçulmana pelo Cristianismo». Ardínia (ou Ardinga) ali refugiada, viria a ser degolada pelo pai e seu sangue derramado junto ao rio Távora – e há quem ainda lhe ouça o choro e que jure já ter visto as águas de vermelho sangue tingidas…

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No SIPA (Sistema de Informação para o Património Arquitectónico), teve Gonçalo Garcia oportunidade de identificar como sendo o versículo 8 do salmo bíblico 120,  a inscrição latina «gravada na pedra de fecho da arquivolta exterior do arco do portal lateral norte». Leu: DOMINUS EXERCITUM CUSTODI AT HUIUS TEMPLI INTROITUM ET EXITUM e traduziu: «O Senhor guarda as tuas idas e vindas, agora e para sempre».

A palavra dominus está em sigla: DNS; o U está grafado não como U mas como V; abundam, como se vê as letras enlaçadas; e não se trata de uma tradução à letra, que é a seguinte:

«O Senhor dos exércitos guarde a entrada e a saída deste templo».

O verbo está no presente do conjuntivo: custodiat. «guarde».

Não é incomum agarrar-se numa passagem da Bíblia, de modo especial do Livro dos Salmos para a aplicar em determinada circunstância ou a inscrever num portal. Esta é, na verdade, uma das que para esse efeito se tem usado e merece, pois, a pena incluir, desde já, a igreja de S. Pedro das Águias nesse rol de citações, dado que, até ao momento, ela tem passado despercebida.

Dir-se-á, em primeiro lugar, que nem sempre a frase bíblica é copiada a rigor. Ou melhor, ocorrem adaptações, consoante o local onde se grava. Assim, neste caso, há notórias divergências, porque a frase, segundo a Vulgata (a tradução da Bíblia mais corrente), reza assim:

Houve, por conseguinte, uma adaptação local, tanto mais significativa quanto, segundo a exegese bíblica, falar em entrada e saída é «a frase técnica para indicar o conjunto das nossas acções – a vida inteira».

Ou seja, voltando à inscrição de S. Pedro das Águias, o que, na Bíblia, se reporta à pessoa humana, aqui foi transferido para a segurança do templo; não admira, por isso, que se haja sublinhado a referência: é o Senhor «dos exércitos»!

A frase noutros locais

Existe em Jerusalém, junto ao Monte Sião, uma igreja sob invocação de S. Pedro que tem um nome popular deveras curioso: chama-se-lhe Gallicantu, isto é, ‘do canto do galo’. Recorda a passagem do Evangelho referente à negação de Pedro: quando o interpelaram «tu também és um dos dele», Pedro jurou que O não conhecia, assim se realizando o dito profético de Jesus: «Tu me negarás antes que o galo cante três vezes!».

Pois é sobre o portal dessa igreja que também está consignada a primeira parte da frase: «Dominus custodiat introitum tuum et exitum tuum».

Idêntica inscrição se lê no portal de estilo renascença do Palazzo Geraldini Battista, sito na cidade de Amelia, em Milão. E também a mesma epígrafe se estende, por seu turno, ao longo de todo o friso da chamada Porta Sancti Thomae («de S. Tomás»), em Treviso, cidade italiana que fica bem perto de Veneza.

porta do Palazzo Geraldini Battista
Porta Sancti Thomae («de S. Tomás»), em Treviso

Assim como no centro histórico de Bari, cidade da Apúlia, porto do Mar Adriático, isto é, já no Sul da Península Itálica, no Largo Maurelli, sobre a arquitrave de pedra branca do portal do renascentista Palazzo Calò, a frase acabou por ter um sugestivo acrescento: D(omi)NVS ꞏ CVSTODIAT ꞏ INTROITVM ꞏ TVVM ꞏ ET ꞏ EXITVM  ꞏꞏ TVVM ꞏ TVLLIO ꞏ ET ꞏ IO ꞏ  IACOBO ꞏ CALO ꞏ ETꞏ AMICISꞏ ANO D(omi)NI, como mostra a figura seguinte, que devo à pronta generosidade de Maria Grazia (grazie mille!), da recepção do referido palácio.

portal do Palazzo Calò

Aproveitou-se, por conseguinte, para, citando-os, individualizar o pedido de protecção para os proprietários do palácio, estendendo-o aos seus amigos. No final, estaria prevista a inclusão de uma data – an(n)o d(omi)ni, «no ano do Senhor» – mas faltou aí espaço para a identificação do ano, que vem, no entanto, em numeração árabe, na linha seguinte: 1583. Anote-se, ainda, por curiosidade, que a expressão Calo et amicis foi considerada oportuna para identificar o bistrot do hotel, constando da respectiva publicidade essa parte da epígrafe.

Em suma: afinal, mui singela inscrição, passível de passar por completo despercebida, acaba por nos mostrar que quem a escolheu para ali figurar tinha a noção perfeita do largo horizonte em que se inseria. Da nossa parte, fica a consolação de, através desta nota, incluirmos S. Pedro das Águias num circuito internacional do mais elevado prestígio.

Agradeço a José Carlos Santos as fotos de Tabuaço, que constam do seu livro Carta Arqueológica de Tabuaço, a ser publicado em breve.

6 COMENTÁRIOS

  1. De: João Gouveia Monteiro
    11 de junho de 2025 13:57
    Maravilhoso, a Epigrafia é na verdade uma coisa fascinante. E como o sentido das frases pode mudar, com correções (só) aparentemente ligeiras. Quem sabe, sabe. Muito obrigado.
    Grande abraço,
    João.

  2. Obrigado pela informação sempre oportuna. Conhecemos S. Pedro das Águias, numa altura em que ficámos em Tabuaço para conhecer aquela região duriense. Até temos fotos da igreja. Mas agora ficámos mais informados acerca da igreja, de suas lendas e da inscrição. Curiosamente também devemos conhecer essa igreja de Bari onde estivemos por duas vezes, mas já não garantimos.

  3. Boa tarde José d’Encarnação.
    Estas histórias com igrejinhas dentro delas e de pequenos retalhos do mapa geográfico, encantam-me.
    Tinha um Amigo que era de Tabuaço (já faleceu muito novo).
    Costumava falar-me das maravilhas do seu concelho, mas creio que nunca falou da Granjinha e da igreja de S. Pedro das Águias.
    Também pouco entrava em igrejas e nada sabia de Epigrafia romana, nem tinha o gosto pela matéria.
    Pela imagem a Igreja parece linda, está cuidada, tem telhado novo. E como aqui é demonstrado tem, no fecho da arquivolta do portal, uma inscrição que será a massa aglutinadora de um mundo cultural plasmado pelo mesmo Império.
    Esse Império procurou aproximar populações distantes, distintas, sob o “farol” de uma religião de estado e fê-lo com sucesso. Ai de quem hoje beliscar certos dogmas que estas inscrições ajudavam a cimentar.
    S. Pedro das Águias inscreve-se nessa rota alargada, mas porque faz parte de um mundo restrito que é o nosso, devia ser dado a conhecer aos meninos das escolas que, como acontecia comigo, embirram com a História.
    Talvez aprendessem mais.
    Muito grata. Um grande abraço.

  4. De: Maria Teresa Azevedo
    20 de junho de 2025 19:25
    Foi um gosto ler o texto sobre a igreja de São Pedro das Águias e o confronto seguinte com as utilizações bíblicas nos monumentos de Itália e não só.. Nunca andei pelos lados de Tabuaço, mas se tiver ocasião não me esquecerei de espreitar (com outra sabedoria epigráfica) pelo portal da igreja!

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