
Não passaram ainda muitos anos sobre esse ciclo da economia familiar de matriz rural, fundado sobre a metáfora da “salgadeira”, essa engenhosa arca tantas vezes cavada num tronco de castanheiro centenar que, na frescura de uma loja, guardava, por uma larga correnteza de meses, envolta em sal, a carne do porco anualmente sacrificado.
Quando os ventinhos do findar do Outono arrefeciam as manhãs, armava-se por essas aldeias fora, nas Beiras ou Trás-os-Montes, na quintã dos lavradores, o tradicional cenário que, ano a ano, se repetia, estranha mesa de sacrifício: um pesado e comprido banco de castanho, cuja única função era suportar o pesado corpanzil do porco, que fora criado como animal de estimação. Cumpria-se antigo ritual de sangue: a “matança do porco”. Dele, ao longo do ano, se cuidara para que este dia estranho se tornasse dia feliz, transfigurando em alimento tão singular dom da Natureza.
Eram chamados para o acto os homens de uma família alargada. Vinham as mulheres também, já habituadas a esse ritual de sangue, em que o único estranho era o “matador”, cuja experiência propiciaria a menor dor ao bicho sacrificado.
Ancestrais ritos de manducação tinham começo logo nessa manhã. Toalha de linho estendida ao jeito de mortalha sobre o corpo inerme da vítima, pão e vinho e, depois, a refeição cerimonial do meio-dia.
Morcelas de sangue suspensas de um varedo de cozinha e os enchidos rigorosamente construídos como em tempo das avós e o lento calor do lume acrescentando sabor ao louro e ao alho, à têmpera demorada em vinha d´alhos, donas vigilantes, dia a dia, sobre o seu tesouro.

Numa vasta cama de sal – que, antigamente, os almocreves traziam de Aveiro e, depois, se carregou em camionetas – pousavam as abonadas pás e presuntos, o cobro, a calubra, as costelas, mãos e pés, fragmentos de uma empírica geografia aprendida de tantas vezes ter visto traçar essas imaginárias linhas de corte carregadas de sentido.
E a rota de um calendário ali ficava também inscrita, na sábia arrumação desse contido espaço da “salgadeira”: o longo ciclo do Carnaval ou do Entrudo com a marcação das Quintas-feiras dos Compadres e das Comadres com seus tradicionais manjares destinados: a carne gorda já tomada do sal, os pés, o rabo, ou a cabeça (se, antes, não se tivesse oferecido como ex-voto a Santo Antão).

E os torresmos guardados para o tarde, em manteiga, numa caçoila de Molelos.
E a cava da regada, as lavras de Primavera, as vessadas, e, logo, o arranque do linho, e as merendas estendidas na eira, chouriça, salpicão frito com ovos, vinho na cabaça e pão caseiro.
Depois, a ceifa em dias acalorados e as malhas, com gente valente e os alguidares com arroz de feijão e as suculentas talhadas de carne, que fortaleciam os braços pela tarde fora.
Depois, os presuntos apimentados, manjares de Páscoa e de Domingo, merendas de amigos à sombra grata de uma parreira, toalha branca num tabuado de adega e as conversas alegres como a espuma do vinho em jarros vidrados.
E as merendas das feiras e romarias de longe, salpicão envolto numa folha de jornal, uma borracha de Dão, que enchera o alforge correndo à roda, feitas as compras no mercado, paga a promessa a um qualquer santo milagreiro. Até que restassem sobre o tabuado da salgadeira duas mãos-cheias de sal, num tempo em que já sopravam, de novo, os ventinhos do findar do Outono, em que de novo se cumpria o dizer do adágio – Pelo Santo André faz o porco cué-cué.



