A FOTOGRAFIA DO MOMENTO

A fotografia disseminada por grande parte dos média ocidentais mostra António Costa, Ursula von der Leyen e Volodymyr Zelenskyy num momento de aparente celebração após mais um anúncio de apoio europeu à Ucrânia.

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É uma imagem reveladora. Há nela qualquer coisa de encenado, um simbolismo coreografado nas mãos sobrepostas, como se a tentativa de demonstrar unidade acabe por revelar, precisamente, a necessidade de a fabricar. Falta-lhe espontaneidade.

O pacote financeiro agora anunciado pode ser apresentado por Bruxelas como abrangente (apoio económico, reconstrução e assistência), mas Volodymyr Zelensky foi claro na sua leitura: para Kiev, o essencial continua a ser o reforço da capacidade militar e a continuidade do esforço de guerra contra a Rússia.

A ocasião serviu também para assinalar o 20º pacote de sanções à Rússia. A eficácia destas medidas é discutível. Não porque sejam irrelevantes, mas porque estão longe de produzir o efeito decisivo que, implicitamente, lhes foi sendo atribuído ao longo do tempo. Além de que existe um efeito de boomerang e onde o custo de vida sobe mais é nos países da Europa.

António Costa sublinhou ainda que está na altura de a Ucrânia iniciar o processo de adesão à União Europeia. Trata-se de um passo de enorme alcance político, mas que levanta questões inevitáveis sobre timing, critérios e coerência dentro da própria União.

Tudo isto nos leva ao essencial: quem decide, e com que grau de legitimidade? Nem António Costa nem Ursula von der Leyen foram eleitos diretamente para os cargos que hoje ocupam. São o resultado de equilíbrios institucionais, de escolhas e negociações entre outros líderes de Estados-membros. Já Volodymyr Zelensky é um Presidente eleito, mas com mandato caducado por imposição de um contexto de guerra que suspendeu o calendário eleitoral.

A arquitetura política da União Europeia permite precisamente isto: decisões estruturais tomadas por figuras cuja legitimidade é mediada, indireta, muitas vezes distante do escrutínio direto dos cidadãos. Eles podem ter legitimidade institucional, mas não podem negar que neste sistema político existe défice de proximidade democrática que se torna mais visível quando estão em causa opções de longo alcance, envolvendo centenas de milhões de europeus.

A fotografia, nesse sentido, vale mais do que o momento que pretende celebrar. Expõe um modelo político onde a aparência de unidade pode esconder tensões, e onde o exercício do poder continua a depender de mecanismos que nem sempre são claros para aqueles em nome de quem se decide.

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