“MISTÉRIO” DESVENDADO (?)

10
1397

A discussão nas redes sociais acerca do significado da inscrição gravada no lintel duma porta nas Freixedas, povoação do concelho de Pinhel, na Beira Alta, acabou por chegar ao meu conhecimento, com o pedido «descobre lá o que isto quer dizer!».

a porta e a inscrição enigmática

Confesso que até desconhecia a existência das Freixedas – assim no feminino plural, como aparece nas duas páginas que, a seu respeito, consultei no Facebook: «Curiosidades de Freixedas», de que José Coelho é, desde 28 de Julho de 202 o dinamizador, e o grupo público “Freixedas”.

Gostei de saber que tinha um Forno Público:

«Em tempos já longínquos o Forno Público era arrematado por uma quantia anual, que revertia a favor da Junta de Freguesia, e o forneiro que o arrematava ficava obrigado a cumprir e fazer cumprir o Regulamento e Estatuto bastante duros e exigentes, elaborado pela Junta de Freguesia no ano de 1886. O forno público era um local de grande respeito e lá eram proibidos desacatos, devido a que o pão era pelo povo considerado um bem sagrado.

O forneiro, de acordo com o Estatuto do Forno Público, não podia negar guarida aos mendigos que passavam por Freixedas, que, além de abrigo, recebiam grossas fatias de pão com que enchiam o saco e o papo».

Houve mesmo a Comenda de S. Martinho de Freixedas, da Ordem de Cristo, criada pelo Papa Leão X, a pedido do Rei D. Manuel I, em 1514.

Vi que, devido à sua antiguidade, se chegou a considerar que devia remontar «ao tempo dos Romanos» uma fonte de mergulho aí existente. Aproveito para dizer que fontes de mergulho ou «de chafurdo» abundam por toda a parte, desde que haja uma nascente de água permanente, como é o caso. Para se considerar dos Romanos havia necessidade de se ter nas redondezas outros vestígios dessa época – e aqui fica o desafio aos investigadores locais.

a fonte “romana”

Um lintel estranho

Mas o que deu origem a este interesse pelas Freixedas foi, como atrás se escreveu, esse tal lintel a cuja fotografia tivéramos acesso. E foram esses baixos-relevos e essas letras meio gatafunhadas que geraram discussão.

Um dos intervenientes chegou a escrever: «A vieira esculpida acima da inscrição, símbolo associado ao Caminho de Santiago, reforça a ideia de que se trata de uma construção histórica – possivelmente uma casa de abrigo ou uma estrutura relevante para peregrinos».

Sobre o verdadeiro significado da inscrição, porém, ninguém se terá aventurado, tão estranha ela parecia. E estranha era ela, de facto, porque o letreiro foi gravado às avessas.

Se virarmos a imagem, lê-se sem dificuldade – e agradeço ao Doutor Saul Gomes ter-me ajudado a confirmar a data nela inscrita. Ou seja, não é grego nem hebraico nem latim: é português e reza o seguinte:

            Ano de m(il) bc lxx se fez.

A data está em numeração romana: o ‘b’ antes do ‘c’ significa  vulgarmente 500. Data, assim, de 1570 a construção do imóvel.

Dir-se-á, no entanto, que estamos, na verdade, perante um baixo-relevo de significado fora do comum. O desenho central assemelha-se a uma embarcação estilizada, de casco curvo e mastro central em jeito de árvore. Do convés parece levantar-se um réptil de ameaçadora cabeça, voltada para trás. Do lado esquerdo, uma flecha pode representar a amarra. Há, oblíquo, um machado de longo cabo e, à direita, o que pode ser a representação de um peixe.

Pensava-se que a inscrição poderia esclarecer o – aparentemente isotérico – significado dos símbolos gravados. Mas, como se viu, trata-se de um letreiro usual, em que as letras, de certo modo, se aninharam nos espaços deixados vazios pela decoração. Esta, sim, é merecedora de atenção por parte dos historiadores de Arte.

esta é a imagem real do lintel, onde se vê o texto gravado às avessas, da direita para a esquerda e com as letras invertidas. Porque será que isto foi feito assim?
a imagem invertida permite-nos ler a gravação sem dificuldade

10 COMENTÁRIOS

  1. De: Maria Fátima Gil
    27 de junho de 2025 15:17
    😁
    Espantoso, o trabalho a que o canteiro se deu para, no futuro, confundir arqueólogos e outros historiadores!… Parabéns por ter encontrado a chave para o mistério!

  2. De: maria helena coelho
    26 de junho de 2025 11:36
    Querido Amigo
    Isto de “andar às avessas” só dá dores de cabeça!…
    Mas para mistérios lá estás tu, como os amigos, para os resolveres.

  3. Boa tarde José d’ Encarnação.
    Também desconhecia esta localidade e bem assim a Comenda ligada à Ordem de Cristo, mas tudo quanto se relaciona com esta inscrição no lintel dessa casa de Freixedas, é fascinante.
    Desde logo a gravação às avessas, como se alguém quisesse esconder a “casa” dos não iniciados na arte da leitura das legendas.
    Que casa seria esta, no reinado de D. Sebastião? Ou teria sido o lintel removido de uma casa desse ano e transplantado para outro imóvel? Aqui, e mais adiante, é sempre a minha ignorância especulativa a funcionar.
    Só uma coisa me espanta: o desenho em si, bem rudimentar para o século XVI, em que a perfeição de naus e caravelas – os vasos mais usados nos mares – já deviam ter representação mais cuidada.
    A menos que se tratasse de um canteiro local, sem instrumentos adequados ao trabalho, nem conhecimentos aprofundado das maravilhas náuticas.
    Muito grata por este texto. Já ando roída de curiosidade para descobrir mais. E depois o forno do pão…Quanto me apetecia ser peregrina por caminhos desses, em que uma nuvem de fumo aromático me levasse a um forneiro caridoso!
    Um grande abraço.

  4. Isabel Luna
    E muito bem desvendado! Ás vezes, a solução para grandes imbróglios passa por uma simples mudança de ponto de vista. Literalmente!
    Também equacionei que o desenho gravado pudesse representar uma barca, o que, num lintel, faria mais sentido em Lisboa.
    Estou mais tentada a ver um ninho com umas aves (sendo que o artista não era grande “espingarda”!), identificando, eventualmente, uma casa pertença da Misericórdia, onde o peixe, enquanto símbolo cristão, também se integra. O desenho do eventual machado é que destoa… 🤷‍♀️

  5. Mais uma vista a juntar ao descoberto.
    Em reforço a Helena e José de Encarnação
    A eventual representação de figuras/ elementos ligados ao mar. Nessa pedra.
    Os mestres de Obras, surgiram muitos da mestragem da execução de embarcações. A data, caso seja essa é de grande propósito. Pois já estavam em marcha as grandes aventuras oceânicas.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui