Vem dos tempos de Adão o humilde ofício de entretecer fibras vegetais a que vulgarmente damos o genérico nome de “cestaria”, saber-fazer acerca do qual me permito citar parcela de antigo texto por mim escrito noutro lugar:
“A cestaria, poética e original construção de entrançados e entrelaçados, primeira manifestação segura de uma tecnologia com alguma complexidade, constitui-se como um dos mais curiosos fenómenos da caminhada histórica do homem, como a expressão mais natural da resolução das suas necessidades, como o testemunho mais evidente da sua estreitíssima ligação com o ambiente.
O desgaste sofrido pelo cesto numa serventia de quotidiano e a própria natureza da matéria-prima vegetal portadora de intrínseca marca do efémero iriam limitar, na cestaria, o valor arqueológico do documento, o qual permanece, todavia, na lição etnográfica felizmente tão vigorosa ainda.
A origem e primeiro desenvolvimento da cestaria processa-se no quadro de uma vida doméstica e rural onde responde às primordiais tarefas de recolecção e às necessidades de transporte, garantindo também a armazenagem dos frutos da terra, o resguardo das utilidades da casa e a defesa dos animais nos cercados da primeira domesticação”. (In Artesanato da Região Centro, IEFP, Coimbra, 1992, p. 189).
Mantém ainda residual presença o fabrico de cestos de tipologia vária na região de Viseu, por mais que os antigos usos se tenham readaptado a novas funções sem terem, no entanto, perdido o papel da inicial serventia.

Tomamos hoje, como exemplo, o fabrico de uma básica cestaria de vime ou de outra verga, que fez dar o nome de “canastreiros” aos executores de um ocasional labor de horas vagas que, todavia, cumpria a resposta a uma imediata necessidade de um artefacto, quase sempre do seu círculo familiar ou de reduzido âmbito, no quadro de uma apertada economia de subsistência de matriz paroquial.
As cestas de amplo aro e uma poderosa asa construída de vime rachado a que se mantivera a casca e o cesto de idêntica matéria entretecido a partir de um elementar cruzamento da matéria-prima, que gerava a embrionária arquitectura das paredes, depois preenchidas pelo apertado laço da verga – que se desenvolve, desde o fundo, até ao reforço dos bordos – constituem-se como operosos instrumentos de trabalho no círculo de uma economia dependente da terra.
Não raro é o próprio lavrador que, na quadra mais vaga do trabalho do campo, se ocupa de semelhante mester, ou então, se menos hábil, contrata com artesão da vizinhança a entrega dos artefactos precisos em troca de trabalho, que tanto pode ser a lavra de um chão para a sementeira do milho ou o carreio dos frutos da horta.

A cesta e o cesto lá andam, no curso do ano, no braço ou na cabeça das mulheres, o cesto mais aos ombros dos homens ou sobre o tabuado do carro. Levam cachos de vindima, espigas de milho para a eira, verdura das hortas. Vendeiras antigas traziam à Praça da cidade mercadorias caseiras, que se expunham também em feiras de ocasião, ou romaria, ainda que a estes lugares viessem antes carregadas com cestas ou cestos, cabazes de verga de madeira de mais apurado lavor.
Mas eram sempre os lavradores quem armava a sebe do seu carro de bois. Colhiam, no geral, vergame de castinçais ou de salgueiro e, sobre a estranha urdidura de varões de castanho que se fincavam nos orifícios do tabuado do carro, estendia-se, pacientemente, uma apertada teia com a verga referida. Deste modo se definia um útil resguardo, a que se articulava uma espécie de porta do mesmo material ou de fruste tabuado junto às chedas do carro, garantindo-se o eficaz transporte dos estrumes miúdos, o carrego das abóboras ou das espigas de milho… Assim amparada, a riqueza da terra nos caminhos de sobe-e-desce dessa geografia de casais e de aldeia.

Hoje são memória, são objectos de museu os cestos também. Mais o são estas sebes de raiz milenar, servis até mais não poder, ora trocadas – elas e o carro de bois de rodas ferradas, às vezes de eixo cantante – pela eficácia mecânica, mas menos poética, do tractor.



