Estamos hoje de volta a Molelos, do concelho beiraltino de Tondela, para celebrar a louça negra com muitos mil anos de história, agora inscrita no Inventário de Património Cultural Imaterial, conforme publicação no Diário da República do dia dois de Abril do presente ano.
Privilégio da autarquia que, em 2024, já havia inscrito no Registo Nacional de Produções Artesanais Tradicionais Certificadas esta indústria artesal – o barro preto – que uma comunidade de sete oleiros mantém viva, nesse tão antigo foco de produção situado no Vale de Besteiros.

Testemunhos se resguardam, dessa louça, num dos núcleos museológicos da cidade de Viseu, uma urna cinerária proveniente de escavações arqueológicas na antiquíssima necrópole de Paranhos, no território de Molelos. Vivo testemunho da mesma nos traz Manuel Botelho Ribeiro Pereira nos Diálogos Morais e Políticos, que escreve em 1635 e onde se refere à frescura da água servida em pucarinhos de Molelos.
No século XIX, a louça preta de Molelos está presente em exposições nacionais e nunca mais deixou de o estar até hoje, missão que lhe fica agora garantida.

Já é objecto de museu o torno, a roda antiga movida com o pé; já é objecto de museu o tradicional processo de cozedura, a soenga, essa cova arredondada onde a louça acastelada coze ao longo de horas e onde o agasalho de terra e cinza que a cobre ao longo de uma noite dá a cor negra ao barro, uma cor iluminada pelos gases resinosos do lume dos rachões de pinho que ardiam na fogueira.
Já é objecto de museu a ancestral técnica de fazer, o tempo da demora, os pequenos objectos da modelação do barro, o processo de uma ornamentação riscada com desenhos, que esses também lhe desenham a antiguidade; já é objecto de museu o antigo processo de a vender, na olaria, de a transportar, de a vender ou trocar num porta-a-porta por toda a Beira, em tendas de romaria e nas bancas de feira.
Ano a ano se reinventa a antiga maneira de fazer, numa festa que os oleiros organizam pelo Verão.

Mas, agora, a roda já não é movida com os pés, já não cansa, mas através da energia eléctrica ou dessa outra que activa também o lume da fornalha.
Os novos oleiros ainda sabem fazer as bilhas de segredo, com o seu encanto e o seu mistério, as padelas de assar a guloseima da chanfana, as assadeiras de servir manjares de forno, as bilhas que ainda servem para beber, as bilhas de segredo que servem para brincar, as tigelas de servir a sopa, aos milhares, numa Feira da Castanha, como acontece em Sernancelhe, e as canecas de servir o vinho.
Os novos oleiros criam hoje outros modelos, outras formas de arte, cuja finalidade é antes o deleite ou a doce reinvenção de uma memória. E ainda guardam, vivo, com motivos para adornar, esse místico álbum com desenhos do passado.
Os oleiros de Molelos, hoje, sobem eles próprios à cidade, entram nos museus, fazem exposições. Eles, homens ou mulheres, ambos criadores, corrigindo linhas de um percurso já passado.








