Julgamos conhecer aqueles que amamos

Andrew Sean Greer é um escritor norte-americano, giro e gay que se farta, e que ganhou um Prémio Pulitzer em 2018 com o seu livro "Less".

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A “História de um Casamento” que hoje vos trago é simplesmente isso, a história de um casamento onde a narradora começa por desabafar connosco: “Julgamos conhecer aqueles que amamos.” Todo o romance se desenvolve em volta desta reflexão num contexto dos anos cinquenta norte-americanos, onde o contexto da guerra e dos que a ela tentaram fugir está muito presente. Pensamos que conhecemos as pessoas com quem partilhamos a nossa vida e uma manhã acordamos e ao nosso lado, na cama, está alguém que desconhecemos.

A protagonista é confrontada com o regresso de um desconhecido, um visitante improvável, um companheiro de guerra, um amante antigo que chegara para recuperar o marido dela… Este homem chegou como uma onda na maré alta, destruindo o pequeno castelo que ela julgara ter construído.

Talvez seja impossível ver-se um casamento, talvez seja impossível desvendar os segredos de uma guerra, talvez seja impossível não sentir uma terrível solidão quando vemos a nossa vida como uma ficção que escrevemos e na qual acreditámos.

As páginas deste romance narram as muitas dúvidas que assaltam a protagonista, ao juntar pontas soltas de uma vida, agora que o seu mundo construído com tanto esforço e cuidado foi arrastado por uma tempestade levando desde as fundações, as paredes, as janelas… O que fez ela com as duas dúvidas? Encerrou-as como se faz às traças, num frasco, para as matar. Com que então, o marido era “um deles”, estavam agora em todo o lado, este género de homens que “andavam agora a nascer”…

Há uma dignidade de gigante nesta personagem feminina, negra, esposa e mãe. De facto, não havia muitos sítios onde um homem branco gay e uma rapariga de cor pudessem encontrar-se em 1953.

O que se faz com os afetos? Andrew Sean Greer escreve sobre as muitas formas do amor, narradas com uma subtileza que não deixa ninguém indiferente. Enquanto autor homossexual, as relações “gay” e o amor são dois dos temas fortes das suas obras, sendo o casamento o centro deste livro, aqui brilhantemente comparado com o chuveiro de um hotel: “regulamos a temperatura correta e alguém do outro lado da parede abre a torneira do seu chuveiro e nós levamos com a água gelada, regulamos outra vez a temperatura, apenas para o ouvir berrar de dor, ele regula a sua, e assim sucessivamente, até alcançarmos um compromisso tépido que ambos possamos suportar.”

Une as três personagens principais desta obra aquilo que liga um ser humano a outro: o sofrimento. Talvez o amor seja uma loucura que, tal como a loucura, é intolerável ser vivido a sós. E quando a única pessoa que nos pode aliviar é exatamente a pessoa à qual não podemos recorrer – aqueles que amamos – acabamos todos por procurar aliados entre aqueles que são nossos semelhantes por já terem sentido algo que os magoou quase tão fundo.

Julgamos conhecer aqueles que amamos, muito simplesmente pensamos que os conhecemos mas não os conhecemos de todo. São facetados de centenas de lados ocultos, impossíveis de descobrir. Ninguém consegue ser forte, prudente, bom e fiel, de verdade, ou pelo menos durante uma vida inteira…

Muito bom!

Acompanhem-me para mais indicações (boas) de leitura.

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