A sua privacidade

Preocupam-se com a minha privacidade? Também me preocupa muito a vossa curiosidade.

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Alguém começou a moda e agora parece normal pedir informação a que não têm direito, como se o costume se convertesse  em “lei” por negligência dos poderes que deviam vigiar os abusos nas redes sociais.

Só podemos entrar num site com permissão das entidades “altruístas e cuidadosas” se aceitarmos. O quê? Eles explicam: recolher matéria para satisfazer melhor as nossas preferências e transmitir aos parceiros os dados que colhem.

Há honrosas excepções e algumas honestidades. As excepções dignas de louvor dizem respeito aos que permitem que nos apeteça rejeitar e nos abrem a porta sem mais imposições.

As honestidades revertem a favor dos que se dignam dizer que têm parceiros a quem passarão as nossas informações, revelando alguns deles.

Aos outros, que apenas colocam a opção de aceitar e prosseguir,  apetece dizer que não nos interessam os conteúdos que fecham a sete chaves, se não contarmos a história pessoal desde que aprendemos a gatinhar.

Aonde vamos parar com esta vergonha de permitir que a nossa vida vá de um lado para  o outro, sem lhes conhecermos a identidade, conhecendo eles a nossa? Quem são os parceiros, as empresas, instituições, agrupamentos, encobertos por interesses esconsos? O que pretendem os parceiros com dados pessoais que sempre foram considerados privados? Compilar um dossiê imenso que servirá para estudo de perfis? Mas que perfis? Com que finalidades?

São muitas perguntas, mas eu preocupo-me com a curiosidade alheia levada ao extremo. Gosto de confiar, conhecendo a personalidade dos parceiros e os negócios a que se dedicam.

Há anos recebi um inquérito de uma entidade bancária que pedia excesso de documentos. Protestei. Permitiram não responder a certas alíneas que eu denunciava. Conclusão: não eram imprescindíveis.

Algum tempo depois, por telefone, tentavam vender-me um serviço qualquer por coincidir com o meu perfil. Perguntei como sabiam certos dados pessoais, o telefone: a minha entidade bancária tinha fornecido a informação.

Podia ter caído o carmo e a trindade? Podia, caiu. Mas como levar o caso a outras instâncias, se o lesado seria o funcionário da empresa que tentava angariar compradores, talvez precisando ele da ocupação para sobreviver?

Há dias queria mandar vir um livro de um editor que pedia respostas a um pequeno questionário, quando eu pesquisava o seu contacto. Nunca descobri morada nem dados mais detalhados. Mas se eu ia pagar antes de receber a encomenda, colocar um remetente e morada que ficariam conhecidos da pessoa a quem me dirigia, não chegava para elementos de registo?

Não quero que se preocupem com a minha privacidade ao ponto de devassá-la. Respeitem-na na medida em que preservam a vossa. Eu preocupo-me comigo, escolho o que me faz falta sem necessidade de sugestões que não sejam próximas e amigas. Os dados pessoais são isso mesmo: pessoais.

As socieades têm de começar a respeitar o próximo, estimulando os princípios de sociabilidade baseados na boa-fé. O resto é um vergonhoso novelo de interesses mesquinhos aglutinados, que têm ajudado a afundar a Humanidade.

5 COMENTÁRIOS

  1. É um negócio, a traficância de dados pessoais. Há organizações, empresas, que vendem bancos de dados de clientes ou utentes dos serviços que prestam. É uma nova fonte de rendimentos. Além disso, os famosos “cookies” cumprem também essa função. Não é raro que depois de termos entrado num site qualquer, sermos bombardeados com publicidade a produtos relacionados com essa “navegação” anterior. É coisa que não acontece a quem visita este site, que não usa “cookies”.

  2. Algumas pessoas têm receio de vir comentar. Já lhes confirmei isso mesmo: ali (aqui) não há cookies, nem pretendem mais do que divulgar, mas uma opinião será sempre bem-vinda.

  3. Mais do que oportuno este artigo.

    Com efeito, hoje em dia nada ou quase nada podemos fazer, via TIC, sem termos que nos ver na contingência de franquar o acesso a informação pessoal, privada.

    Ora nos exigem que aceitemos as tais “cookies”, ora nos atraem com o engodo do acesso pretensamente gratuito a conteúdos que procuramos para, a meio da pesquisa, nos exigirem que nos “registemos”. Para já não falar na inundação de anúncios a que somos sujeitos quando procedemos a uma pesquisa através das ditas tecnologias. Anúncios e publicidade que, por acaso ou talvez não, incidem em temas e produtos que nos podem interessar e que até já possamos ter consultado.

    Desde Orwell que o sabemos, “big brother is watching you”. Mas nunca supusemos que se atingissem estas proporções.

    Ironicamente, esta mancha “voyeurista” alastra ao mesmo tempo que se multiplicam os procedimentos que, pretensamente, se destinam a proteger os dados individuais: nada de mais ambivalente e ineficaz, como se vê.

  4. Cuidado e caldos de galinha – é o que apetece dizer, a fim de se lutar contra essa desenfreada caça de dados pessoais. Bem faz o Duas Linhas que baniu os cookies e manigâncias parecidas.
    Mas que fizeste muito bem em chamar a atenção para essa caça, ai sim que fizeste!
    Parabéns!

  5. Fantástico texto muito conciso mas de grande profundidade que aborda um fenómeno preocupante. Uma hipocrisia pegada em que fingem respeitar a privacidade das pessoas que andam a vigiar. Agradeço a oportunidade do tema.

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