A LUTA CONTRA O FASCISMO

0
902

É um espetáculo sem palco. Existe palco, mas está ocupado por uma grande tela onde passa parte da narrativa. Os atores misturam-se com o público, há vários elementos de cena que estão espalhados pelo espaço (mesas, livros, projetores, panfletos, bibelots). Desenrola-se em jeito de manifesto político.

A primeira meia-hora é frenética. Contam-nos a história dos principais campos de concentração e cadeias de alta segurança do Estado Novo, desde o Tarrafal a Peniche, do Aljube a São João Baptista (Açores), da Machava à sede da PIDE em Lisboa. Ficamos a conhecer os cárceres do império colonial.

Depois vêm as lutas, as perseguições, as matanças, décadas de repressão política do Estado Novo, da ditadura salazarista. A vida na clandestinidade. Reproduções de panfletos são distribuídas pelo público, livros proibidos são dados a conhecer, explicam-nos como se fazia para abafar o barulho dos teclados das máquinas de escrever, para que o tac-tac-tac não fosse ouvido no silêncio da noite.

Algumas das reproduções de panfletos, jornais e revistas da época distribuídos pelo público durante o espetáculo

Era proibido ser comunista, era proibido ser homossexual, era proibido ser livre. As mulheres sem direitos de cidadania, os homens empurrados para a emigração a salto. Na grande tela, aparecem fotografias de Gérald Bloncourt que se dedicou a imortalizar a saga dos portugueses nos bidonville de Paris.

fotografias de Gérald Bloncourt sobre a emigração portuguesa para França nos anos 60 do século XX

É uma história pesada. A música ao vivo ajuda a suavizar a dureza dos relatos. É um espetáculo longo de duas horas bem medidas. Tem a virtude de terminar num pico narrativo, onde a exaltação se iguala à que sentimos na primeira metade da encenação. Teresa Sobral teve ainda mais um mérito: o de escolher um bom naipe de jovens atores, que bem precisam de visibilidade e de reconhecimento do público e dos seus pares.

Vale muito a pena ir ao teatro ver espetáculos desta dimensão artística e humana. “Em Silêncio” merecia todos os palcos do mundo.

vídeo promocional

Intérpretes: Ana Valentim, Beatriz Maia, Hugo Narciso, Mário Coelho, Patrícia Fonseca, Tomás Barroso. Músicos: Hernâni Faustino (contrabaixo), Miguel Sobral Curado (guitarra elétrica), Leonor Cabrita (voz).

«Em Silêncio» é um dos 45 projetos apoiados pelo programa «Arte pela Democracia», uma iniciativa da Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril em parceria com a Direção-Geral das Artes.

Depois dos espetáculos no Centro Cultural das Caldas da Raínha, seguem-se os espetáculos no palco do Teatro José Lúcio da Silva, 29 e 30 de junho, em Leiria. E mais tarde, Lisboa, no São Luiz.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui