O ‘like’ do general

Dia 8 de janeiro de 2023, militantes da extrema-direita brasileira e apoiantes do derrotado Jair Bolsonaro, invadiram e destruíram a Praça dos Três Poderes, o centro do poder político no Brasil. Tudo aconteceu depois do general Augusto Heleno, ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional de Jair Bolsonaro, ter colocado um 'like' numa publicação de teor golpista no X (Twitter).

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Na sequência da vitória eleitoral de Lula da Silva, milhares de apoiantes do candidato derrotado concentraram-se em Brasília. Apelavam à intervenção militar para derrubar o Presidente eleito. Durante dias nada aconteceu. Mas, depois, como se tivessem recebido um sinal, uma ordem de comando, avançaram, invadiram edifícios de vários ministérios e da Presidência e destruíram tudo o que encontraram pela frente.

imagens da invasão e destruição provocada pelos manifestantes pró Bolsonaro no dia 8 de janeiro de 2023

As investigações judiciárias que se seguiram a essa tentativa de golpe de estado não relacionaram o “gosto” do general com a explosão de violência que se seguiu, mesmo se o “gosto” do general foi notícia logo no dia seguinte.

Mas, hoje, a questão está a ser analisada pelos meios académicos, não pelos jurídicos. O investigador universitário Vinícius Vargas Vieira dos Santos, da Universidade Estadual do Mato Grosso, publicou em maio um artigo científico, refletindo sobre como as ações nas redes sociais possuem impacto na esfera pública.

Segundo ele, o ato de “curtir” uma postagem em plataformas como o Twitter não pode ser compreendido como uma mera expressão pessoal, mas um ato performativo que pode influenciar um grande número de pessoas devido aos algoritmos que amplificam tal interação​​.

No caso do “gosto” de Heleno, foi exatamente isso que ocorreu. O perfil de Augusto Heleno no X (Twitter) era, à época, seguido por cerca de 2 milhões de pessoas (hoje tem 2,2 milhões). O “gosto” aplicado naquele comentário serviu para ampliar em larga escala a visibilidade da publicação. O “gosto” do general foi interpretado como uma ordem? É bem possível.

imagem atualizada ao dia da publicação deste artigo

As redes sociais têm o poder de moldar o discurso público ao determinar as mensagens que são disseminadas. O general Heleno pode ter atuado intencionalmente para potenciar uma narrativa golpista e incitar ações antidemocráticas.

a publicação onde o general Heleno colocou o seu coração

Até hoje, o ‘like’ do general tem passado à margem das investigações sobre se houve uma tentativa de golpe de estado. Mas, na Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara Legislativa, o deputado Fábio Félix já questionou Heleno sobre o caso. O general confirmou que só ele tem acesso à sua conta no X (Twitter), disse não se recordar de ter colocado um like na publicação em causa. O deputado Fábio Félix disse que o “gosto” não era apenas um apoio silencioso, mas um ato que possivelmente contribuiu para a escalada dos acontecimentos violentos de 8 de janeiro​​.

“Pode não parecer, mas esta rede social sempre que se coloca um like numa mensagem, aumenta o âmbito de distribuição dessa publicação”, disse o deputado distrital. É exatamente o que diz, agora, a academia. Resta saber o que dirá a Justiça, mas desconfiamos que não vai dizer grande coisa.

Para um final de artigo mais caseiro, resta dizer que um dos fiéis seguidores deste general da extrema-direita brasileira é o capo da extrema-direita portuguesa.

(Artigo com Intercept Brasil)

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