No tempo em que não havia Segurança Social

Cenas da vida saloia (II)

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1742

Ganhava-se muito pouco. Em muitas famílias se passava fome. A alimentação era à base de sopa de feijão que levava água, feijão e couves da própria horta e um pouco de toucinho e massa. Se houvesse sardinhas em casa, uma tinha que dar para três irmãos. Azeite nas batatas muito pouco. Carne era só pelo Natal ou pela Páscoa, então lá se matava uma galinha ou um coelho.

Os homens, quando saíam do trabalho, passavam pelas tabernas para beber uns copos, jogar às cartas, ao dominó e, se estivesse de dia, também ao chinquilho. Por vezes, já meio bêbados, quando havia uma discussão mais acesa, então resolvia-se a coisa logo ali e era ao murro. No outro dia, iam para o trabalho com a cara e os olhos inchados e eram gozados pelos colegas. Também havia alguns homens que não se aguentavam e caíam no caminho à vinda para casa e ali ficavam uma ou duas horas até um familiar vir à procura e levá-lo para casa, por vezes com chuva e frio, sujeito a morrer.

Na minha zona, no espaço de 1 km havia cinco tabernas, algumas com mercearia junta. O taberneiro fiava, para se pagar no fim de semana. Sendo assim, se passasse por todas, chegavam a casa bêbados. Alguns homens eram agressivos para com a esposa e, por vezes, com os filhos. Normalmente, discutia-se por não haver comida em casa e o dinheiro não dava para gastar nos copos e, como se costuma dizer, «Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão».

Tasca do sr. Prego na praia das Maçãs

Na época da caça ao coelho, um homem com um sacho e um cão ensinado para caçar depressa arranjava um ou dois coelhos que tanto jeito dava. Também se ia ao mar, Ia-se com a maré vazia e montavam-se armadilhas nas poças mais fundas e ficavam de noite. No outro dia, ia-se na maré vazia, mas a da manhã, e sempre tinha alguma coisa: um safio, uma abrótea, um polvo. E assim também era uma maneira de suavizar a fome.

Praia da Ribeira, Cascais, meados do século XX

Os pescadores profissionais saíam para o mar nas suas traineiras levadas a remos, por vezes com muita dificuldade, com o mar muito agitado. Arriscavam a vida para trazer algum peixe e, assim, ganharem algum dinheiro para sustento das famílias. O peixe era entregue na lota, para ser leiloado pela melhor oferta. As peixeiras vinham às aldeias com a canastra à cabeça, vender de porta em porta. Mas, como está escrito na nossa história, sobretudo em relação à época dos Descobrimentos, nós sempre fomos corajosos para enfrentar o mar.

Por volta de 1940, alguns homens iam trabalhar para as Câmaras das suas localidades. Iam para varredores das ruas e para as camionetas para apanhar os lixos. Eram colocados num determinado lugar que, por vezes, ficava a quilómetros de casa. O caminho era feito a pé, por atalhos, no meio de cabeços com tojos e, assim, o percurso ficava mais curto.

A dada altura, a Guarda Florestal começou a contratar mulheres para a limpeza da Serra de Sintra. Vinha uma camioneta média com um encerado a cobrir a carroçaria, que tinha um banco de cada lado para se sentarem seis em cada. A camioneta vinha às aldeias para levar as mulheres a trabalhar oito horas e, depois, à hora de sair ,vinha trazer. Era um trabalho duro para as mulheres, mas também uma forma de ganhar uns escudos para dar de comer aos filhos.

Nesse tempo, não havia Segurança Social. Para uma pessoa pobre, era muito difícil ir ao médico, mas, se tivesse mesmo que ir, tinha de pedir dinheiro emprestado. Depois, havia a diferença de classes: quando esperavas pela tua vez, se, nesse espaço de tempo, chegasse o senhor engenheiro, o senhor arquitecto ou o senhor doutor, passava à frente e lá tinha o pobre que esperar.

Nesse tempo, quando falecia uma pessoa, o velório era feito em casa e, no dia seguinte, fazia-se o funeral. Vinha uma carreta, levava o corpo e, em andamento muito lento, as pessoas seguiam atrás, a pé. Em alguns lugares, chegava-se a andar 6, 7, 8 km para chegar ao cemitério. De volta para casa, quem tivesse alguns trocos vinha na carreira; se não, tinha que vir outra vez a pé.

Nos vários lugares da freguesia existia uma coletividade, onde se faziam bailes para se divertirem ao domingo, mas também para se fazerem bailes de benefício para alguém que estivesse doente e acamado. As pessoas levavam, por exemplo, um coelho assado no forno, um pão de trigo e uma garrafa de vinho, outras levavam animais vivos para se fazer criação. Iam-se leiloando no decorrer do baile e, no fim, o dinheiro apurado era para a pessoa que estava doente.

As raparigas dançavam umas com as outras um bolero, um vira, uma valsa; e, no lado de fora da sala, estavam os rapazes, que, a dois, faziam sinal às raparigas se queriam dançar com eles. E, quando dançavam, era a um palmo de distância entre eles. Para se dançar juntinhos já se tinha que namorar para, depois, se casarem. As raparigas iam para o baile acompanhadas pela mãe ou, então, por um irmão, que normalmente era um miúdo. Tudo para se mostrar respeito! O pior era quando o puto tinha três irmãs a namorar ao mesmo tempo! Ele vinha distante e à frente e, quase a chegar a casa, sentava-se e esperava, esperava, até ter que dizer: «Vou entrar! Se não quiserem vir, problema vosso!». Então, acabava-se logo o namoro, para entrarmos todos juntos em casa.

Nos Santos Populares, fazia-se uma fogueira, montava-se um balcão, assavam-se sardinhas e bebiam-se uns copos. Dançava-se ao som dos banjos e violas. As raparigas queimavam a flor das alcachofras; no dia seguinte, iam ver: se tivesse outra vez flor, era sinal de que o rapaz dos seus sonhos também gostava dela; se não florisse, não gostava e elas ficavam tristes.

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