Trabalhava-se do nascer ao pôr do sol

Cenas da vida saloia (I)

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Há muitos anos, a vida era bem difícil.

Vivia-se numa ditadura e não havia liberdade para o quer que fosse. Se falasses mal do Governo e estivesse algum bufo por perto, no outro dia tinhas a PIDE para te levar para a prisão.

A casa onde algumas pessoas pobres moravam era, por exemplo, um barracão, que servira outrora como curral da burra. Ajeitava-se o chão, que era de terra batida, batia-se com um maço, ficava rijo e servia como soalho. Tinha telha à vista e, de vez em quando, lá estava alguma cobra enrolada nos barrotes. A luz era de candeeiro ou lamparina a petróleo ou candeia com azeite.

No quintal, longe de casa, fazia-se um buraco com cerca de 1 m x 1 m x 1,5 ; atravessavam-se duas tábuas que, no conjunto, tinham cerca de 50 cm na largura, para se porem os pés, a fim de se fazerem as necessidades; vedava-se à volta e fazia-se uma porta.

Quem tivesse posses, abria um poço. Depois de se encontrar água, fixava-se um moinho de vento para puxar a água para a rega na horta ou, então, tirava-se a água com um balde e uma corda.

No lume, na lareira, punha-se uma panela cheia de água. Quando estivesse quase a ferver meter, despejava-se para dentro de um alguidar grande de barro ou de zinco e aí se tomava banho.

Para desfazer a barba, um pedacito de sabão azul e branco numa tijela; esfregava-se nele o pincel, punha-se na cara e utilizava-se a gilete, que, por sua vez, se tinha mudar de lâmina, quando esta já não cortasse.

Algumas mulheres lavavam roupa para as senhoras ricas do Estoril. Iam buscar a roupa e depois ia-se numa burra com a albarda e dois cestos, até onde havia uma nascente. Punham-se tarroeiras com pedras em cima para vedar a água e pedras grandes e lisas para fazer os lavadouros.

Na rua, os miúdos de pé descalço jogavam à bola, ao peão, ao berlinde mas com bogalhas apanhadas das carrasqueiras. Não havia dinheiro para comprar berlindes. As raparigas jogavam ao jogo inglês e saltavam à corda.

Dizem os mais antigos que o meu pai, quando teve as primeiras botas, dançava o fandango descalço em cima dos tojos e andava com elas às costas, porque não as aguentava.

Trabalhava-se do nascer ao pôr do sol e, como diz a canção do Zé Fernando de Colares, Sintra:

Coitado do cavador
Tem uma vida amargurada
É de manhã ao sol pôr
A puxar pela enxada
Grupo de saloios na fonte

O trabalho das mulheres era guardar gado para as pessoas que já viviam melhor e já podiam ter alguém para guardar as vacas e as ordenhar para, depois, levarem o leite e fazerem queijos.

as alfaias expostas no Casal Saloio, outeiro do Polima, Cascais

Os homens cortavam mato para a cama dos animais e trabalhavam a terra. Tinham de lavrar os terrenos com uma charrua puxada por uma junta de bois. O homem usava um guilho enfiado num pau comprido para guiar os animais.

exposição de fotografias no Casal Saloio, Outeiro do Polima, Cascais

Semeava-se o trigo, a cevada e a centeio; no fim do Verão, apanhava-se e levava-se para um terreno grande, onde se agrupavam medas e cada uma pertencia a um dono. Ficavam à espera de uma máquina debulhadora, que percorria as localidades da freguesia. A máquina separava as sementes da palha que, por sua vez, seguia para um outro compartimento e já saía em fardos. As sementes levavam-se para o moleiro, para se obter farinha.

moinho na zona da Malveira

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