Sobre o Tempo

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À maneira de Proust, quero poder vir a ter o Tempo nas minhas mãos – manobrá-lo, tirá-lo do osco em que se encontra, salvo se ele inexistir ou se manifestar limitado. Quero, um dia, saber estabelecer o que é o Tempo e em que medida o género humano o partiu em três: em três no tempo “vivido”, pois na gramática, pela palavra, partiu-se-lo em inúmeras fações, em ordem de se encontrarem formas que digam tudo, que explorem cada momento presente dentro do Tempo e momentos desses momentos, como se fosse necessário dizer que determinada coisa se sucedeu num momento tão exato do Tempo; quero, também, a sagacidade de Marcel e estabelecer um “Agora” que me permita vislumbrar o Tempo como tendo Passado e Futuro – o beijo da mãe ou a magdalena no chá não os tenho, mas talvez consiga arranjar os meus próprios pilares e orientar-me.

Há Passado assim como Futuro, nunca um “Presente”, porque tudo o que se foi passou e tudo o que virá será: na mesma lógica, portanto, todo o “Agora” é, e por estar sendo constitui “Presente”(?): porém, de que maneira falarei do “Agora” se esse mesmo já passou no preciso momento em que foi dito? – ah!, não há Presente, somente um breve instante que sucede numa esteira de momento de momento [sic] enquadrado numa atualidade. Se tiver uma dor longa, por exemplo, direi “Dói-me” (“Presente”), mas essa dor nunca é a mesma, antes um continuum momento dentro da tripartição elementar a que fomos acostumados; a dor longa, contínua, renova-se perpetuamente, modificando-se, tornando-se experiência que afligiu, portanto Passado, que vai afligindo (Presente) e que, no campo das incertezas, afligirá (Futuro) até um certo e determinado ponto no Tempo.

Usei “afligindo” em detrimento de “aflige” para tentar demonstrar o instante “Agora”, então, Presente. Não há inocência na escolha. Para se definir/explicar o que é o Tempo – coisa de que estou longe de fazer –, creio que seja preciso analisar essa forma verbal tão desdenhada na gramática do português europeu, o Gerúndio. Quando ouço algum amigo dessas terras verdejantes, do Brasil, por exemplo, fascina-me o facto de de facto [sic] o que quer que se esteja a passar no momento dito Presente se permaneça realmente lá sem deslizar para o Passado. “Estou estudando”, dizem eles, enquanto que nós galgamos um “Estou a estudar”; estar a estudar é, com efeito, “Presente”, mas um Presente muito pobre – uma espécie de Presente que tem cedo a sua morte anunciada e, por conseguinte, diminuta implicação no por vir –, já o estar estudando manifesta o instante “Agora” numa paulatina extensão até ao Futuro, esquecendo-se do Passado até a ação estar terminada, isto é, o ato de estudar, por exemplo.

Mas o que é o Tempo? – parece ser unidade dilatada e uma medida – mas, porventura, como medi-la? Para tudo aquilo que está imbuído de vida, o Tempo principia no exato momento em que essa coisa também principia; pensando numa árvore de fruto, a sua vida, o seu ciclo, começa logo que as sementes se apoderam dos nutrientes da terra para se desenvolverem e expandirem: e na esteira do mesmo pensamento, também a vida humana principia no exato momento em que o espermatozoide fecundou um óvulo, embora, porém, talvez haja começo um pouco mais cedo, isto é, assim que o espermatozoide maturou e está pronto a unir-se a um óvulo, assim como na semente já existe matéria suscetível de se animar.

Assim é o Tempo do orgânico. Poderia pensar onde termina – há vários tipos de morte. O Tempo de uma coisa termina com a sua morte, com a sua inutilidade, ou, porém, nunca termina por via de um prolongamento metafísico, ainda que desconhecido. Um Homem, um animal, uma planta, morrem – acabou: recorrendo ao exemplo humano, o coração pára, o sangue deixa de circular e o cérebro de oxigenar, a pele perde a sua cor creme para se banhar de uma palidez acinzentada, os membros endurecem e o defunto não responde a estímulos, está morto, num curto espaço de Tempo, horas, a carne começa a enfraquecer, a deteriorar-se, e os perfumes da Morte tornam-se evidentes – acabou: o Tempo deixou de contar enquanto matéria intelectual, agora há o tempo da destruição, só com gerúndio e futuro, os processos de putrefação e, depois, da conspurcação dos ossos: o morto não apresenta consciência de Presente, de “estar sendo”, enquanto entidade animada – acabou: mas há quem defenda que a vida vai para lá da morte  do corpo, de que uma essência, a alma?, se preserva e continua sendo além do fim das funções vitais, de que a carne, o corpo, o recetáculo, é somente meio e ilusão, que tudo dura e se perdura numa dimensão supra-humana – então, não acabou?: não sei, não tenho como responder a isto, nunca morri para o saber, ou seja, tenho visto outros morrer e colho a impressão de que para eles acabou de vez ali, no caixão, no cessar do coração e cérebro – “acabou de vez”, já havia acabado antes?: para muitos organismos, infelizmente, a deterioração não tem começo com a morte, pois muitos que vivem vão-se morrendo ainda animados: vivem, sim, com efeito, o mais que podem dessa aventura que é meditar Passado, ser Presente e ver Futuro, mas num determinado ponto da vida, a Vida esgota-se, o Homem torna-se enfermo, dependente de bengalas e drogas, depois de uma cama em permanência, e depois de máquinas que lhe sustenham algumas funções vitais dadas como automáticas e adquiridas, até que tudo falha, nada mais se sustem, e, por fim, se morre – acabou: sim, acabou o sofrimento e a agonia de se morrer em vida, de no pouco Tempo a que esta raça tem consagrado, se ser somente metade, um corpo mole  e medicamentoso: acaba com a morte, mas a ausência de independência já é uma espécie de morte – morre-se vivendo.

Do Tempo parece inútil guardar rancores. Guardemos os desejos – guardemos e sonhemos, vivamos esse doce fértil de imaginar o que seria de nós se no lugar de uma coisa se desse outra ou, porventura, ainda uma outra, mais improvável e absurda; sonhemos e imaginemos todos os desejos inflamados e todas as vezes em que ao chorar gostaríamos de no-lo ter feito. Aprendamos que há um Tempo só nosso: vós tendes o vosso: eu tenho o Meu Tempo, que não percebo muito bem o que é mas que possui todas as minhas experiências e espectativas – embora destas últimas queira vivê-lo vendado, alheio a previsões e profecias: quero viver o Meu Tempo agarrado a ele no “Agora”, no Instante, em plena vicissitude, seja ela a chorar ou a amar, não me importa.

E quanto mais pensamos no Tempo, que Tempo nos resta para outras coisas? Uma coisa é certa: nada permanece, tudo se dissolve.

O que é o Tempo, afinal? – digam-me (!) –, ou será que ainda haveremos de obter uma resposta?

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