OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE

Salta-nos à vista, de vez em quando, o que foi a actuação dos Portugueses no Extremo Oriente.

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Sabemos muito de Macau; começamos a compreender melhor o que se passou em Timor; regozijamo-nos por saber da persistência de costumes e falares portugueses, o crioulo português no Sri-Lanka, antigo Ceilão, o Bairro Português de Malaca (Kampung Portugis).

Muita investigação se fez e muita há a fazer para melhor se compreender a aculturação registada. Chegou-me às mãos uma dissertação de mestrado em Estudos Europeus, Mediterrânicos e Asiáticos, feita por Rita Bernardes de Carvalho (1982-2013) na École Pratique des Hautes Études, de Paris, em 2006. Apesar da data já recuada, creio não ser despropositada esta referência, para que conste, na medida em que a prematura morte da autora contribuiu para que o seu estudo fosse esquecido.

O tema é a presença portuguesa em Ayutthaya, a capital do Sião, nos séculos XVI e XVII, e a pesquisa foi orientada pela conhecida historiadora Dejanirah Couto, «maître de conférences» na referida Escola Prática de Altos Estudos, autora, por exemplo, duma História de Lisboa cuja tradução foi publicada em 2003.

Em quase 200 páginas, Rita Bernardes de Carvalho mostra como foi importante essa presença numa época assaz curiosa também, porque corresponde à perda e subsequente recuperação da nossa independência, em 1640, o que, como se sabe, teve reflexos políticos e económicos também nessa área oriental.

Ayutthaya, mapa de 1686

Trata o 1º capítulo do Império Marítimo português na Ásia: o Estado da Índia, o comércio nos mares da China, o período da influência espanhola, a ameaçadora presença dos Holandeses… De 1660 a 1680 consolida-se a sobrevivência, mas depois Macau irá ser a única continuidade dos Portugueses na Ásia.

No 2º capítulo, Rita Bernardes de Carvalho dirige o seu olhar para o reino de Sião e, sobretudo, para a sua capital Ayutthaya: como era encarado o seu regime pelos Portugueses, que produtos europeus ali se comercializavam, que europeus por lá estanciavam, além dos Portugueses (Espanhóis, Holandeses, Ingleses e Franceses). Decai Ayutthaya já no século XVIII.

O 3º capítulo historia as embaixadas trocadas entre os dois países (Portugal e o Sião) e lança-se um olhar mais acutilante sobre o «Bang Portuguet», ou seja, o bairro dos Portugueses, situado a sul da cidade e a oeste do rio Chao Phraya, que compreendia também a parte norte e sudeste desse território. Verifica-se um nível de integração bastante elevado. Escreve Rita Carvalho:

«Não se trata aqui de homens que casam com mulheres autóctones mas dum homem que ele próprio se torna local. Os filhos desses casais mistos eram educados numa dupla cultura, sendo a cultura «thaïe» a mais marcante para a criança» (p. 95).

A autora acentuará esse aspecto na conclusão, ao assinalar a existência de muitos «mestiços» no círculo de poder como tradutores e intérpretes, sublinhando que essa «mestiçagem integrada» está na base do facto de os Portugueses terem permanecido longamente na cidade (p. 111).

Refere-se a acção de dois dos chefes da comunidade portuguesa: Cristóvão Rebelo, que, depois de aventuras no Mar de Bengala, foi capitão-mor, provedor dos defuntos, e chegou a ter poder judicial; e Francisco Barreto de Pina, «um comerciante estabelecido no Sião, com uma rede de sólidos conhecimentos graças às suas ligações com os casados de Macau, cujo filho era intérprete da língua siamesa» (p. 102).

Completa o trabalho a transcrição dos documentos diplomáticos mais significativos trocados entre Lisboa e o Sião nessa época, mapas e imagens, destacando-se, por exemplo, fotografias dos trabalhos arqueológicos desenvolvidos para se identificar o que resta da igreja de S. Domingos. E, naturalmente, nutrida bibliografia.

E se concordamos com o que autora escreve «Seria cativante prosseguir os estudos acerca das comunidades portuguesas espalhadas por outros países da região, como o Laos ou o Camboja», mais concordamos ainda com a ideia de que «muito seria enriquecida essa análise mediante a integração de estudos antropológicos e sociológicos acerca da ‘diáspora’ portuguesa na Tailândia, como resposta à necessidade de ligar a História a um presente sempre vivo» (p. 114).

Enfim, tantos mundos a descobrir, nesse mundo por onde o Português longamente peregrinou!

Ayutthaya, Buda nas raízes de uma árvore centenária.

5 COMENTÁRIOS

  1. A presença portuguesa no mundo é tema que dá pano para mangas. Creio que há ainda muitos pormenores por descobrir. Quando em 1992 andei pela Somália, falaram-me de um povo (um grupo tribal) que viveria numas aldeias da zona de Kismaayo (perto da fronteira com o Quénia) conhecido como “os portugueses”. A lenda de uns sobreviventes de um naufrágio, nunca resgatados, que ficaram por ali e se integraram. Não sei se ainda será possível confirmar isto, a Somália deixou de ser um Estado organizado há demasiado tempo… mas é apenas um exemplo do que haveria de ser pesquisado e estudado.

  2. Não tinha reparado no pormenor que torna este texto tão oportuno e interessante: a morte prematura da autora desta investigação notável.
    O trabalho desenvolvido deve ter sido moroso. E depois, as conclusões a que chegou Rita Bernardes de Carvalho sobre a presença portuguesa no reino de Sião nos séculos XVI-XVII, não podem ficar anulados pelo seu precoce desaparecimento. Há sempre possibilidade de abrir ramificações a partir do que ficou, ampliando-lhe o significado, como ela mesma sugeria.
    Grata a José d´Encarnação por trazer este tema e dar a conhecer um trabalho de investigação que podia ficar esquecido por arquivos invisíveis.

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