Mudam-se os tempos, mudam-se os lugares

Situado no centro da cidade, é hoje um espaço reabilitado, ocupado pelo Museu do Molde, um amplo auditório, vários espaços para exposições e alguns serviços da autarquia. É o Edifício da Resinagem, cartão de visita da Marinha Grande, nome no qual ecoam memórias de tempos idos. Conheci o edifício da resinagem como mercado municipal. Participei nas lutas sobre a mudança de localização do mercado, a construção de um novo, a transformação da resinagem naquilo que é hoje.

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Passaram mais de vinte anos. O novo mercado, construído no espaço onde outrora fora
uma fábrica, da qual ainda sobrevive a imponente chaminé, foi objeto de lutas políticas
renhidas, entre o PS e a CDU, e nunca abriu. Um centro comercial, o Cristal Atrium, com
mais lojas fechadas do que abertas e uma esplanada partilhada por vários restaurantes, é
tudo quanto resiste do conjunto de serviços, de que o novo mercado supostamente deveria
ser a âncora. É o único espaço, nesta cidade de pouco mais de trinta mil habitantes, com
uma escada rolante.

O mercado municipal, “provisoriamente” instalado numas tendas junto à zona desportiva,
ainda lá se mantém e com grande sucesso, sobretudo aos sábados.
A memória do velho mercado na resinagem já só existe para os marinhenses seniores. Mas
pode ser revisitada nos textos que então uma turma de alunas da Escola Profissional e
Artística (EPAMG), da qual fui professora de Antropologia, produziu e o Jornal da Marinha Grande publicou (edições de Abril e Maio de 2003).
Eu mesma escrevi um texto, que ainda hoje me faz revisitar a cidade como ela era então e,
em parte, se mantém. Um texto que, vinte anos depois, ainda muito me apraz partilhar.

Esta manhã sonhei com flores

Nem cheiro a flores nem simpatia das floristas. Débora espetou o nariz num molho de cravos vermelhos e ficou à espera que lhe chegasse aos ouvidos uma cantiga de Abril.

Aproximou-se de uma vendedora, explicou pacientemente ao que vinha, que era só uma pequena entrevista, para escrever um texto sobre o mercado para publicar no jornal, porque o mercado ia mudar de sítio e ela e as suas colegas estavam a contribuir para guardar essa memória. Mas nada. Não queriam nada com jornais. Desgostosa, Débora lançou um olhar às flores, agradeceu na mesma e ficou sentada na praça à espera que lhe viesse uma ideia florida para um texto com ou sem floreados. Um poema, uma investigação botânica, uma prodigiosa aventura das flores. Qualquer coisa que lhe salvasse a honra de aprendiz de repórter ou de investigadora.

Já o sol ia alto quando algo fantástico aconteceu. Viu uma jovem com um vestido decotado abrir a porta a um belo rapaz que lhe entregava um ramo de rosas vermelhas. Saíram de mãos dadas e, como na cantiga, “foram para a praça e começaram a se abraçar”. Rodaram abraçados durante algum tempo.

Depois o rapaz desapareceu sem deixar rasto, as rosas vermelhas foram-se transformando em túlipas amarelas e a jovem começou a chorar.

Uma bela dama atravessa a praça com um ramo de orquídeas. Mais além, uma mulher vestida de negro carrega um grande ramo de crisântemos. Dirige-se, em passo apressado, para os lados do cemitério. Em silêncio, aproxima-se de uma campa, coloca as flores num vaso, baixa a cabeça e chora lágrimas verdadeiras, de saudade de um companheiro prematuramente perdido. Os crisântemos começam a ganhar forma de rosas brancas, a jovem viúva levanta-se, destapa a cara coberta com o véu e os seus olhos parecem irradiar uma felicidade suprema.

Um menino oferece-lhe uma rosa cor-de-rosa e, pegando-lhe na mão, leva-a para um jardim onde há rosas de todas as cores, margaridas que abrem e fecham, túlipas negras, amarelas e brancas, e cravos, muitos cravos vermelhos. No jardim há uma praça, há uma estátua que não está a arder, há milhares de pessoas com um cravo vermelho na mão, um cantor barbudo que canta, a plenos pulmões, Grândola Vila Morena, acompanhado por um coro de raparigas que erguem as mãos soltando bandos de pombas brancas. Débora está lá. Tem uma flor vermelha na mão, tem uma cantiga na boca, sente-se feliz de andar por ali como um cavalo à solta, mergulhando numa multidão de rostos, dos quais reconhece alguns, de homens e mulheres que já viu em fotografias e sabe que são os heróis da revolução de Abril.

Uma comichão no nariz começa a incomodar a Débora. Abre os olhos e vê a Luciana que lhe mostra, orgulhosa, uma página retirada da Internet, com o significado de algumas flores. Percebe então que sonhou, enquanto esperava que o perfume das flores acordasse nela alguma memória adormecida.
(Publicado no Jornal da Marinha Grande, 29.05.2003)

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