BRANQUINHO

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Por duas vezes a tia Celeste deu-me a receita. Na primeira, enquanto fazia a sobremesa, tirei notas, fiz perguntas, fui muito profissional. Depois… perdi o papel. Voltou a dar-me há uns meses pelo WhatsApp.

Retrocedi no tempo, entrei na sala da avó materna com a mesa grande. A sobremesa estava sempre presente, sempre. É feita pelo país inteiro, ou quase todo, no Norte a aletria é quem reina, e costuma ser feita com ovos. É amarelinha, não como a da minha avó.

Passado uns meses, quando precisei de ter a minha tia por perto, atrevi-me. Já sabia que, no momento em que se põe o açúcar, o arroz deixa de cozer. É o segredo, confidenciou-me.
Fi-la com fidelidade, mas entretida com outras coisas. Percebi de imediato que não se pode abandonar o tacho, não se pode deixar nunca de rodar a colher de pau.
Exige vagar e tempo, muito tempo do vagar. Se queimar um pouco que seja… acabou.
Faz parte do legado que a minha avó passou para as filhas e chegou a mim, a educação do palato, a cultura gastronómica. Se não tivesse tido uma avó beirã era provável que não conhecesse este doce ou não o apreciasse por aí além.
Voltei a fazê-lo, agora focada no segredo novo. Consegui! Deixei-o cozer até ficar meio empapado, tive paciência para os “carimbos de canela”, tive toda a paciência do mundo. E amor.

Comi, ainda quente, um prato de sobremesa, pus numa travessa laranja o resto daquela perfeição. Depois, levantei-me dez vezes do sofá para comer um bocadinho com uma colher de sobremesa pequena. E voltei a levantar-me outras dez, já estava na cama. Só mais uma, outra, ainda mais outra. Cinco minutos na boca, cinco anos nas ancas.
O segredo de saber que o arroz pára de cozer quando se acrescenta o açúcar é crucial mas pouco vale sem o outro: a disciplina em rodar a colher de pau, a contenção para não apressar o que não pode ter pressa. É uma maratona, não um sprint.
Começar a dar voltas com a colher de pau leva-me quase sempre para devaneios. Mas, ao fim de pouco tempo, a colher manda um pontapé na crise existencial, sobra a fusão lenta entre o arroz e o leite. Nada mais existe, apenas foco, essencial para levar a sobremesa e a vida para a frente. Só com foco se chega ao fim da maratona, com a cabeça centrada num único objectivo. Não importa chegar em último ou em primeiro, interessa chegar ao fim.

As distrações deixam estorricar a sobremesa, desistir do que se quer alcançar. Sem foco, vai tudo ao ar, sai tudo queimado, fica tudo pelo caminho. A perfeição torna-se inatingível, a frustração instala-se, entranha-se nos mil objectivos que queremos fazer ao mesmo tempo. Não há tempo para tanto tempo. A sobremesa exige tranquilidade, dispensa desculpas, pensamentos negativos e… ovos. É arroz doce beirão. Branquinho.

PS: Dias depois no super-mercado coloquei os ingredientes no cesto mas, na fila para pagar voltei atrás, deixei nas prateleiras o arroz, o açúcar, o leite, os paus de canela e o limão. É que a perfeição é gulosa. Cinco minutos na boca, cinco anos nas ancas. Não há foco que nos valha.

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