Variações, ficções, decisões

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Fechei o dossier, fiz uma bela jardineira para o jantar sem stress de tempo. Uma sesta ligeira, apenas 20 minutos. A noite anterior foi uma maratona de trabalho, havia ainda a revisão no dia seguinte. Afundei-me no fresco dos lençóis.

Às tantas, a tampa do tacho saltou, a jardineira gritou que estava mais do que apurada! Dei de caras com as estrelas, olhei para o relógio, saltei da cama já vestida, senti-me uma erva daninha, corri porta fora. O meu anjo da guarda adormeceu…

Uber ou táxi? Não, vou a pé, vou a pé, com a cabeça a correr mais do que as pernas. Numa esplanada, um empregado de mesa old fashion, calças pretas, camisa branca, sossegou-me, era ao virar da esquina.

Estava tão desnorteada que, desta vez, foi o segurança a sossegar-me. Encontrou o bilhete digital e, não, não tinha perdido o holograma, era na música final. Entrei, serenei. Ao longe a banda, a meu lado gente descontraída a bebericar uma cerveja. Há tempos que não ia a um concerto.

Esgueirei-me por entre as pessoas, fintei visões e ficções, cheguei ao pé do palco. Dancei e cantei instantaneamente. Não é preciso nenhum comprimido para me entregar ao Sérgio Praia que me leva de encontro ao meu António. Ao fundo, a marcar o ritmo, vi o sorriso rasgado dele.

Mesmo assim continuei na lama, como é que cheguei tarde e a más horas a um concerto para o qual tive o privilégio de ser convidada? Mas rapidamente larguei a culpa, a lama, não estou ausente, estou aqui, estou além, na festa, um concerto é isso mesmo, uma festa.

Chegou o tal holograma do António. Mas só depois é que veio a magia. Não a digital, essa não me convenceu, mas antes a voz dele, a verdadeira, ele a cantar aquele hino ao amor. Rendi-me, comovi-me. Ninguém canta assim!

Encontrei os amigos lá fora, pouco depois o anfitrião apareceu radiante, assolapado de paixão. Tive a tentação de ir sair com eles mas percebi que estar ali eu ou a Maria Albertina era mais ou menos a mesma coisa. Estou a delirar! No que é que estou a pensar? E a revisão? A cabeça tem de ter juízo. Perdi-os de vista, saí sem dizer adeus, flanei pela liberdade da avenida.

Adormeci na realidade dos sonhos, acordei de volta à revisão. Tempo de pausa, nem tudo é nem deve ser como um castigo que tenho de viver.

A campainha tocou, o abraço dele encontrou-me. Voltei a ser eu com ele. Para trás ficaram apenas fantasias que o cinema projectou no meu olhar. Adormeci entrelaçada à realidade dos seus braços.

Acordei às sete da manhã, duas canecas de café depois, escrevi, de novo, ao dj preferido que é só meu! Ouvi e vi-o ao vivo apenas duas ou três vezes depois da prisão do confinamento, já lá vai tempo. Por outro lado, passou a ser aquele amigo que entra para tomar um café e vai ficando, ficando. Agora era a minha vez.  Fui a pé, é bonito poder ir a pé ao encontro da Luz.

Ele não estava na discoteca… Subi ao piso do bar, a segurança gira, de rabo de cavalo preto e comprido, explicou tudo. Abriu a pista, mas a do bar, não se sabia se a ia fechar. Shuifff…

Apanhei o clássico vodka tónico, cirandei, fui à varanda, encontrei e larguei amigos, regressei ao bar. Dei de caras com ele ao virar da esquina, literalmente. O meu dj de eleição, do qual sou groupie auto-intitulada. Ficámos frente a frente, não havia como não nos cumprimentarmos. Protocolo resolvido falei logo dos posts com aberturas infantis, da lamechice da escrita. Respondeu que era bom manter a capacidade de ser criança. Fiquei atrapalhada, ele devolveu-me um sorriso embrulhado numa resposta tão bonita que a guardo só para mim.

Perguntei se ia fechar o set, ainda não sabia. Desolada, supliquei. “Por favor, vim para te ver e tenho muitas decisões para tomar na pista”.

Fui apreciar o Tejo, a Estação de Santa Apolónia a decorar a paisagem, desci com as estrelas. Ali estava ele, em dueto com outro dj. Música para dançar, alegre. Soft, sem décibeis  agressivos. Pouca gente, uma pista intimista, perfeita. O Sol espreguiçou-se, esticou os raios e nasceu. É assim que começa o milagre da vida.

À saída passei pela pista, não resisti a piscar-lhe o olho. Mandou abraços e fez um largo sorriso. Saí a acreditar que, no sumido momento em que me viu, esteve a tocar só para mim. Coisas de groupie…

Lá em baixo, a dj com ritmo e atitude na batida, pôs-me logo a dançar. Saí para ir retocar a maquilhagem. À saída avistei-os, o Diogo não me reconheceu de imediato. A Sónia, pelo contrário, puxou-me pelo braço para ficar com eles. “Obrigada, tenho de ir ter com o pessoal”. Deixei-os à conversa com a Maria Albertina.

O Francisco acompanhou-me na dança, no meio de tantos outros, lá à frente, de frente para a dj, em pura harmonia.  Dancei até se abrirem as portas da realidade. Abençoados óculos escuros.

Na realidade do dia seguinte, os amigos do coração alertaram-me para o que me faz falta para ser feliz. É que sou muito ambiciosa, quero é ser feliz!  A quimera do EuroMilhões ajudaria, sim, mas  são os outros que te entregam a felicidade de mão estendida.

Cheguei casa, descalcei-me e, como é tradição, a abertura do set está a cargo do Senor Coconut. “I don´t love you, you don’t love me. Dá, dá, dá”.

O dj giraço, (pois agora é de carne e osso), apareceu para um café rápido e foi ficando, ficando. Sempre a dançar tomei diversas decisões, entre elas a de mudar de vida pois há vida em mim a latejar. Não larguei mais a pista da sala de estar. É que ele, num registo ecléctico, continuou a passar música só para mim.

Coisas de groupie…

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