No parlamento, rasgaram o Cartão do Adepto

O cartão do adepto foi parar ao lixo. Os partidos políticos tiveram medo. Com eleições antecipadas à porta, nenhum quis desagradar ao eleitorado que gosta de ir à bola. Mesmo se em causa estavam questões como segurança, combate ao racismo e à xenofobia.

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Em 2009 todos os partidos políticos consideraram que as claques de futebol eram causa e gatilho de desordens e de instabilidade perigosa para a segurança da generalidade dos que vão a um recinto desportivo ou a um estádio de futebol para assistir a um evento desportivo.

Nessa altura, foi considerado que seria necessário registar todos os elementos das claques, para que as forças policiais soubessem quem integra esses grupos e, assim, controlar esses desordeiros mais facilmente.

A lei foi aprovada, demorou a ser aplicada, com o surgimento da pandemia deixou de haver problemas nos estádios (deixou de haver público) e há três meses foi aprovado, por decreto governamental, no âmbito da Lei de 2009 aprovada pela Assembleia da República, a criação do cartão do adepto.

A lei falhou em muitos aspetos, nomeadamente na criação deste cartão do adepto, O Bloco de Esquerda explica porquê:

Luís Monteiro, Bloco de Esquerda

Três meses depois, a Assembleia da República decidiu revogar o decreto do Governo. Até oito deputados do PS votaram a favor dessa revogação.

Havia três projetos em discussão, da Intervenção Liberal, do Partido Comunista e do Chega. O único aprovado foi o projeto da Iniciativa Liberal.

Cotrim de Figueiredo, Iniciativa Liberal

A Iniciativa Liberal preocupada com as finanças dos clubes e a atribuir ao cartão do adepto as causas dos estádios estarem vazios, o que é uma dedução falaciosa. Os estádios de futebol estão vazios há muito tempo.

Em defesa da maioria dos adeptos que são cordatos e que gostam de assistir pacificamente aos eventos desportivos, saiu o PC.

Alma Rivera, Partido Comunista

O Partido Socialista admite que a lei que existe pode ser melhorada, mas diz que não faz concessões a quem menospreza as evidências de violência e racismo nos recintos desportivos.

Tiago Martins, Partido Socialista

De facto, neste parlamento há até quem não consiga reparar nos casos de racismo e xenofobia que ocorrem nos recintos desportivos. Quem não quer ver, jamais irá conseguir vislumbrar o que quer que seja.

André Ventura, Partido Chega

O deputado Ventura insurge-se contra o cartão que custa 20 €, mas quer mais polícias nos estádios, mais vídeo vigilância, quer investimentos de muitos milhares de euros que muitos clubes não conseguirão garantir.

Entretanto, há centenas de adeptos que foram judicialmente impedidos de voltar a entrar em recintos desportivos, nomeadamente estádios de futebol. São os desordeiros, quase todos membros de claques clubísticas, julgados e condenados em tribunal por terem despoletado e alimentado atos de violência.

Mariana Silva, Os Verdes

O cartão do adepto acabou, assim, de modo inglório. Não passou de um arrependimento coletivo dos deputados. Mas ainda bem. Se não resultou, que morra cedo. Mas o problema da violência nos recintos desportivos, do racismo e da xenofobia no desporto e nas bancadas persiste e carece de tratamento adequado.

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