Acidentes em centrais nucleares de Espanha

Há uma memória coletiva histórica, talvez injusta, que nos segreda que “de Espanha nem bom vento nem bom casamento”. Quanto a casamentos, o ditado será certamente injusto. Quanto a ventos, convém realmente termos algum cuidado. Quando a central nuclear de Chernobyl explodiu, na Ucrânia, foi o vento que transportou poeiras e chuva radioativa até ao centro da Europa, contaminando campos e provocando doenças nas populações a milhares de quilómetros do local do acidente.

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Nas últimas horas houve notícia de acidentes em duas centrais nucleares espanholas. Nenhum dos acidentes foi em Almaraz, a central que Espanha construiu juntinho à fronteira com Portugal.

Os acidentes reportados hoje dizem respeito às centrais de Ascó, em Tarragona, onde morreu um trabalhador da área da manutenção. Há ainda três feridos hospitalizados. O acidente provocou uma fuga de dióxido de carbono, um gás tóxico que terá sido o causador da morte e dos internamentos.

Há pouco mais de um mês, o Movimento Ibérico Antinuclear (MIA) denunciou a existência de uma fuga de água “altamente radioativa” na central nuclear de Cofrentes, em Valência. Os responsáveis por esta central nuclear reconheceram ter havido um acidente mas rejeitaram que tenha tido consequências, quer na saúde dos trabalhadores quer no ambiente.

Mas as desconfianças são muitas, é bem possível que a gravidade deste acidente tenha sido disfarçada. A central de Cofrentes já completou 37 anos de operação, está no limite da duração para que foi programada.

Central Nuclear de Almaraz atingiu limite de idade

Fora do prazo de validade está já a central de Almaraz, a tal que foi construída na fronteira com Portugal e à beira do Tejo, rio que (a jusante de Almaraz) passa por muitas aldeias, vilas e cidades portuguesas, entre as quais Lisboa. Se um dia Almaraz envenenar as águas do Tejo, a radioatividade chegará ao mar e a Lisboa em pouco tempo.

Há cerca de um ano, um problema no reator da unidade II obrigou à paragem de urgência dessa unidade. A Iberdola negou ter havido contaminação do ar ou das águas do Tejo, mas os ambientalistas lembram que se trata de uma central envelhecida, que já ultrapassou o tempo útil de vida.

As probabilidades de alguma coisa correr mal em Almaraz não são de desdenhar. Além do cansaço dos materiais, aquilo funciona desde 1981, a central está implantada numa zona de risco sísmico.

A idade máxima para uma central nuclear é 40 anos, ao fim dos quais deverá ser reformada. Arrefecida e desmantelada. Mas o Governo espanhol já anunciou que Almaraz vai continuar até 2030. A ver vamos se não vamos ter chatices com isto.

Transformar Almaraz em armazém de resíduos nucleares

O futuro de Almaraz não será nunca risonho, mesmo depois de 2030. O sítio está a ser adaptado para armazém nuclear de resíduos radioactivos de outras centrais espanholas.

Os ambientalistas dizem que Almaraz poderá mesmo vir a ser o armazém do lixo radioactivo de todas as outras centrais nucleares espanholas.

O Governo espanhol está a investir 220 milhões de euros nesse projeto de arnazenamento. Não deve ser uma coisa passageira.

O perigo é real, embora se fale pouco nele. Mas a verdade é que existem três postos de medição de radiactividade ao longo do Tejo, em Fratel, Abrantes e Lisboa.

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