Crime, dizemos todos

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Cresci com a imagem odiosa do Simon Legree e a sua violência racista sobre o Pai Tomás. Essas páginas faziam-me sofrer. Foi o primeiro livro que me marcou, li-o muito cedo. Comprei um colar com uma cruz de madeira, ainda em miúda, em homenagem à “Escrava Isaura” que eu via na televisão e que pus ao pescoço. A ideia do racismo foi-me incomportável desde que me conheço.

Como docente de inglês, sempre que pude e posso, falo aos alunos de Martin Luther King e Nelson Mandela. Muitos desconhecem totalmente o que foi a segregação racial nos EUA até há poucas décadas, assim como o regime do apartheid na África do Sul. A maioria, até. Acredito que estas imagens que agora chegam da América lhes provoquem interrogações. O meu filho, de doze anos, falou-me de vídeos e memes virais à conta de George Floyd. Eu sei as notícias, disse-me.

Ser racista não é só contar anedotas sobre negros. Conta-se anedotas sobre imensas etnias, grupos sociais, religiões. Não iria por aí. Ser racista é negar os direitos de igualdade e de justiça, o que vai muito mais para além de piadas, contadas por brancos ou não brancos. Ser racista é considerar que a cor da pele é impeditiva para coisas simples e básicas do quotidiano, como acesso à saúde, à educação, ao emprego, ao amor, à justiça, à dignidade. Ser racista é humilhar. É recusar o direito à mesma panóplia de benesses e de problemas que os cidadãos comuns têm, independentemente da sua origem e cor. Ser racista é querer um mundo separado, entre os que merecem e os que não merecem, entre os que podem e os que não podem, entre os que são e os que não são. É uma visão redutora e castradora da sociedade em que o poder de uns anula ou aniquila quem não faz parte da sua identidade. É um sério caso de crueldade identitária, de soberba discriminatória, de exclusão preconceituosa.

Nos EUA, a maioria dos americanos convive bem com as origens diversas da sua população. Do melting pot à salad bowl, a alegoria para a América não tem  esquecido as suas cores. Teria sido impossível construir a nação americana e sobretudo assistir ao seu desenvolvimento social e tecnológico nos séculos XX e XXI com convulsões constantes. O “American Dream” já foi possível, com todas as suas histórias de frustração pelo caminho. Era a América e nela tudo era possível. Apesar de tudo, alguns descendentes de africanos – e de escravos, se formos lá bem atrás – conseguiram singrar em áreas como a música, o cinema, a justiça, o desporto, o corpo policial, entre outras. Um presidente negro foi eleito e mostrou que o sonho era possível. Não está em análise a sua ação política, mais ou menos apreciada, é assim em democracia, mas o facto de o ter conseguido. Uma inspiração, nesse sentido.

Contudo, não tenhamos dúvidas, o racismo nos EUA é persistente. A extrema direita, nacionalista, de supremacia branca, não se evaporou definitivamente, nem com o fim da segregação oficial nos estados do sul. Bolsas de comportamentos racistas são frequentemente denunciadas, causando ondas de indignação ocasionais nos media e na sociedade.

O atual presidente dos EUA veio, sem dúvida, legimitar o discurso do preconceito. Contra países, contra nacionalidades, contra instituições, contra grupos, contra concidadãos. O seu lema Let´s Make America Great Again é essencialmente dirigido a uma América conservadora, evangélica, fechada e intolerante. Inventam bodes expiatórios para os infortúnios nacionais, geralmente económicos. Com um presidente assumidamente privilegiado e que exclui os mais fracos, as atitudes discriminatórias e racistas, se existiam antes, podem crescer em número e a descontração com que as exibem também. Para muita gente, o exemplo vem de cima. Sem exemplos de dignidade e tolerância e sem apelos à contenção por parte de um Presidente narcisista, não se pode esperar coexistência.

Estes tumultos de reação ao homicídio de um homem negro que foi friamente asfixiado por um polícia branco, refletem o profundo descontentamento de uma comunidade e de todos os verdadeiros democratas.  Atuações cruéis e crimes racistas não podem ficar impunes. A destruição e pilhagem que se seguiram não servem a causa e há mesmo americanos negros a proteger as suas casas e negócios, de armas na mão.

A violência não é o caminho, Luther King dizia-o claramente. Nem a vingança, mas o racismo endémico de alguma América também não se pode continuar a suportar.  Bom seria que quem preside aos seus destinos o entendesse. 

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