Reza a história oficial, aquela que se escreve com a pompa dos submissos e a vaidade dos medíocres, que o Magano Nabo – esse paradigmático mestre da ilusão e ilusionista da fé pública – subiu um dia ao topo do palanque para falar à pobre e dormente cidadania. Julgava-se, no alto do seu pedestal de gesso, o farol luminoso da nação.
O espetáculo, contudo, foi de uma sonolência atroz. Num tom enfadonho, lento e compassado, o homem discursava enquanto o povo, amodorrado pela melodia anestesiante, dormia a sesta da ignorância. Foi precisamente nessa pasmaceira de enfado, nesse silêncio cúmplice dos justos, que o marialva estendeu a sua rede. Distraiu uns quantos com promessas de vão de escada, atraiu os demais com o brilho de falsos amanhãs e viu o negócio na hora oportuna. É que este Nabo, dotado de dotes perfeitamente banais, possui uma sabedoria única: sabe exatamente como herdar a fortuna alheia sem verter uma única gota de suor.
Olhando bem, trata-se de um homem sem ponta de pinta. O visual é fraco, a presença é cinzenta, mas compensa a falta de postura com o disfarce infalível do “homem de bem”. No entanto, desengane-se quem lhe procura a virtude: na intriga política e social, que é o seu verdadeiro quintal de eleição, o Nabo não poupa a vida a ninguém, cavando a ruína de quem se atravesse no seu caminho.
Mas a paciência da plebe tem limites, mesmo para estômagos fortes. Cansou-se o povo de tanta candura simulada, de discursos ocos, feitos de vento, poeira e fumaça. Enquanto o Nabo filosofava sobre o sexo dos anjos, a vida real corria avessa, dura e implacável, deixando o cidadão comum sem eira, nem beira, nem traça.
Houve, por fim, um berreiro. Um brado de revolta. Partiu-se o encanto artificial que nos unia na letargia e, num arranco de extrema ousadia, fez-se a revolta. Caiu a ilusão por terra, o Nabo foi escorraçado e a pátria suspirou, aliviada, julgando-se livre da praga.
Pura ilusão. Passou a tormenta, rodou a engrenagem do sistema e quem é que regressa, impávido e dominante, à velha ribalta? O mesmo Nabo! Agora surge com nova roupagem, novos assessores e o mesmo desplante, porque a lata e o descaramento são recursos que nunca escasseiam nesta bendita terra.
Ei-lo agora elevado a Ministro, doutor diplomado por decreto ou equivalência de favor, fino no trato e com pose de grande artista. É certo que continua inverso nas artes da governação e focado apenas no erro, mas confesse-se a sua agilidade: é lesto a entrar na revista social e a garantir o seu quinhão de protagonismo.
Para imortalizar o seu próprio ego, criou a moldura legal e fundou o respetivo instituto público, cujo único propósito real é pregar e elogiar o seu próprio retrato. O homem é dilato vasto em sumários e folhetins, mas tragicamente diminuto em obras feitas. Um autêntico mestre do falso aparato.
Hoje, entre romarias de província e festas da praça, o Nabo vende o país por preço de esmola. Para a nossa sacola coletiva não entra um só vintém, as contas públicas minguam, e o Nabo, do alto da sua imunidade, sorri descaradamente da nossa desgraça.
Quem paga, afinal, a fatura desta vaidade soberana? Quem assume o dano material e moral deste reino desfeito? Ninguém. O Nabo sacode alegremente a responsabilidade para o governo anterior ou para a conjuntura internacional. Afinal de contas, para ele, o cargo político é eterno e o bolso… esse é absolutamente perfeito.



