O MAR QUE NOS FALTA

Ensaios sobre o Porvir Português

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Mar nostalgia

Portugal é um país que historicamente se conjugou no futuro do pretérito. Somos a nação do “haveria de ser”, alimentada por um sebastianismo que transferiu para o horizonte a resolução das nossas angústias imediatas. Quando transpomos a interrogação metafísica do amanhã para o solo específico deste retângulo à beira-Atlântico, a pergunta pelo “nosso futuro” deixa de ser uma abstração cosmológica e passa a ser um debate sobre a nossa própria substância identitária. O que significa, afinal, o amanhã para um povo que se define tanto pelo que já foi?

A nossa primeira grande encruzilhada filosófica reside na tensão entre a memória e a possibilidade. Portugal sofre de uma gravidade histórica que atrai os nossos olhos constantemente para o retrovisor. O mar, que outrora representou a abertura radical ao desconhecido e ao porvir, tornou-se uma metáfora de nostalgia. Corremos o risco latente de transformar o país num museu de si mesmo, onde o futuro não é uma tela a ser pintada, mas uma concessão burocrática ditada por agendas externas e fundos estruturais. A verdadeira soberania do amanhã exige que deixemos de ser apenas herdeiros de um passado épico para passarmos a ser os arquitetos de uma contemporaneidade audaz.

Há também um paradoxo demográfico e humano que desafia a coerência do nosso destino. Assistimos a uma geografia fraturada: por um lado, um interior que se esvazia em silêncio, como se o futuro ali fosse uma promessa suspensa; por outro, centros urbanos híper conectados, mas que enfrentam a diluição dos laços comunitários em nome de uma modernidade líquida e turística. A interioridade em Portugal não é apenas uma distância quilométrica, é um isolamento existencial. O nosso futuro depende crucialmente da nossa capacidade de reconciliar estas duas velocidades, compreendendo que a coesão territorial é, antes de tudo, uma exigência de justiça ética.

Além disso, a portugalidade enfrenta o desafio da universalidade. Sempre fomos um cais, um ponto de partida e de chegada. Hoje, o amanhã de Portugal desenha-se na encruzilhada entre os jovens qualificados que partem em busca de horizontes mais largos e as novas vagas de imigração que procuram no nosso solo uma nesga de esperança. Esta dinâmica transforma a nossa identidade numa matéria maleável. O futuro português não será definido pela pureza de uma herança estática, mas pela generosidade da nossa hospitalidade e pela nossa inteligência em integrar a diferença sem perder a nossa matriz afetiva, a nossa singular “humanidade de proximidade”.

Portanto, “o nosso futuro em Portugal” não está escrito nos decretos de Bruxelas nem nas flutuações do turismo global. O amanhã deste país decide-se na audácia de contrariar o fatalismo do “sempre foi assim”. Decide-se na capacidade de valorizar o conhecimento, de fixar o talento e de cuidar da nossa paisagem humana e natural. Se o futuro é uma construção da vontade, Portugal precisa de ousar desejar-se a si próprio no presente, não como uma periferia resignada, mas como um centro de pensamento, sustentabilidade e dignidade.

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