11 DE SETEMBRO, DUAS NARRATIVAS DO MUNDO

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Em política, as coincidências podem não ser apenas coincidências. E quando acontecem entre acontecimentos desta dimensão, talvez valha a pena olhar para elas. Enquanto o mundo ocidental assinalava os 25 anos do 11 de Setembro, os líderes dos BRICS reuniam-se em Nova Deli para discutir precisamente uma das questões que mais desafiam a ordem internacional dominada pelos Estados Unidos: a construção de um mundo menos dependente da hegemonia política, económica e financeira de Washington.

A escolha da data da cimeira – 11, 12 e 13 de setembro – pode não ter qualquer relação com o aniversário dos atentados. Mas o contraste é inevitável. De um lado, Nova Iorque e o Pentágono, onde Donald Trump aproveitou a cerimónia para apresentar a actual guerra contra o Irão como uma continuação da luta contra o terrorismo iniciada depois do 11 de Setembro. Do outro, Nova Deli, onde os países dos BRICS, que representam cerca de 40% da economia mundial, reafirmaram a defesa da soberania dos Estados e condenaram as sanções económicas unilaterais e secundárias, considerando que estas têm consequências negativas para os direitos humanos e para o desenvolvimento. Não deixa de ser um jogo de palavras interessante.

Não é preciso escolher entre estas duas imagens para perceber o problema. O problema está precisamente na forma como uma delas ocupa quase todo o espaço mediático enquanto a outra chega ao público português filtrada pelas agências de informação. Nos nossos ecrãs, o 11 de Setembro voltou a ser contado sobretudo a partir de Nova Iorque e do Pentágono. Pouco se viu ou ouviu daquilo que estava a acontecer em Nova Deli, onde se reuniam os dirigentes de uma organização que reúne quase metade da população mundial e uma parte crescente do poder económico do planeta.

E isto também é uma questão de jornalismo. A ausência de jornalistas portugueses em Nova Deli não é um detalhe. É uma escolha editorial. Significa que, para o público português, uma parte importante da transformação do mundo chega apenas através do que outros decidiram que era notícia. O que se passa é que enquanto uns continuam a contar o mundo a partir do centro da velha ordem, outros já estão a discutir como será o mundo depois dela.

Há um número que ajuda a perceber a dimensão do evento. Só três dos onze países que integram os BRICS – China, Índia e Brasil – representam cerca de 37% da população mundial, mais de 3 mil milhões de pessoas. Não estamos, portanto, perante uma reunião de países periféricos a contestar uma ordem internacional que lhes é alheia. Estamos perante uma parcela gigantesca da humanidade a discutir uma ordem mundial diferente.

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