Poderia considerar-se estranho falar disso, mas não é, porque, de facto, esse bairro nasceu, a partir de meados do século passado, numa zona que era, na verdade, de mato. Hoje, detém todas as características de bairro suburbano; mas nessa rua foi deixada parte da vegetação original – e já se vai explicar a razão do seu interesse.
É conhecido que, no concelho de Cascais, existem várias povoações chamadas Carrascal (Carrascal de Manique, por exemplo, Carrascal de Alvide…), a dar ideia de que o carrasco era aí uma das espécies dominantes na vegetação original do concelho, designadamente nesta sua zona ocidental.

Ora porque é que terá importância, do ponto de vista histórico, além da importância do ponto vista botânico, manter uma vegetação que é original?
É que vive associado ao carrasco (Quercus coccifera, de seu nome científico) um pequeno insecto, a cochonilha-do-carrasco, também chamada o quermes (Kermes vermilio). Ora, a cochonilha introduz-se nos tecidos vegetais e alimenta-se da seiva. Reage a planta à sua presença produzindo uma espécie de tumefacção. Essa estrutura acaba por envolver o insecto, que fica praticamente imóvel. O corpo da fêmea, sobretudo quando cheio de ovos, já os romanos o recolhiam, secavam e obtinham assim um corante vermelho-carmesim que, sub-repticiamente, adicionavam à púrpura verdadeira com que se tingiam os mantos imperiais e as togas dos senadores.
A púrpura era obtida através do que se retirava da «purpura haemastoma», o molusco marinho também chamado «stramonita haemastoma». Dele foram encontradas muitas conchas no povoado romano dos Casais Velhos, perto da Praia do Guincho; e daí se considerar que Casais Velhos, até por aí também se terem encontrado tinas, tenha sido um centro de produção de púrpura. Ora, juntar ao líquido extraído do molusco o resultado da maceração da cochonilha era um bom negócio, porque se vendia o resultado como se fosse púrpura verdadeira!…

Por isso se pugna em manter os carrascais onde eles ainda existem: preserva-se um revestimento vegetal antigo, ligado, neste caso concreto, a uma história antiga também.



