Lembro as frescas madrugadas dos homens e mulheres a caminho das hortas, dos quintais, dos campos cultivados, lembro os regos de água a correr vigiados pelo Louvado, as águas soltas das represas que iam regar milhos e batatais, o estranho ruído de um motor de rega já inventado, o eco das malhadeiras nas eiras vicinais onde pouco antes batia o pírtigo dos manguais malhando o centeio. Dos homens, cansados, carrejando a palha do palheiro. Da cruzinha lá fincada lembrando suas dores. Dos alqueires de pão que depois se entregavam ao moleiro.
Lembro-me do pintar das uvas nas videiras, das peras maduras, das ameixas, das melancias, dos pêssegos a começar a amadurar, dos figos lampos, dos cortiços das abelhas ao lado da vinha de onde meu pai tirara o mel pelo S. João, do cão preso ao tronco da tileira (leia-se tília) vigiando, atento, os matreiros passos da raposa que descia dos pinhais. Lembro-me dos gados dormindo num curral, do António, um bom pastor a quem eu levava a ceia e me talhava flautas num pau de sabugueiro.
Lembro-me do cantar das rolas nos pinhais onde eu ao tempo adormecia, da música dos grilos que não paravam de cantar na margem do ribeiro, das rãs e do seu eterno coaxar, dos ralos, das libelinhas, dos peixinhos cabeçudos, a nadar, que mais não eram que umas rãs em crescimento.
Lembro-me do tocador da concertina que nos dias da semana era serrador. Das rusgas dele, aos domingos, pelas ruas da aldeia. Do bailarico no Adro. Das lengas-lengas. Dos jogos Infantis. Dos brinquedos de brincar que aprendíamos a fazer ou nos compravam numa feira.
Também me lembro de pobres de pedir. E dos caldeireiros sentados numa banca onde as mulheres levavam cântaros para soldar a asa ou tapar o furo que elas taparam antes com palhinha para não vazar. E dos alvitanos que compravam peles de coelho, farrapos, cornelho e cera de abelha.
Lembro-me da Feira de S. Bartolomeu, em Trancoso, onde meu pai levava os bois. E onde me comprava as botas novas e de onde nos trazia pão de trigo e as melancias divinais. E das feiras da vila onde, pela vez primeira, comprei a um vendedor um folheto de cordel com uma história de chorar.
E lembro-me do sino, à noite, dando o toque de rezar. Da modorra do gato à lareira, a ronronar. Do silêncio imperturbável pelo justo tempo das nove badaladas. Das orações balbuciadas. Da bênção pedida a nossos pais. E da brancura fresca do lençol que minha mãe aconchegava.



