Quando a plantámos, sabíamos duas das suas características:
– Era uma liana invasora. Servia-nos, portanto, bem para se agarrar à vedação metálica e cobri-la dum manto verde.
— Segunda característica: deslumbraria a vizinhança, no momento certo, com os seus vistosos cachos pendentes de florinhas roxas.
Sabíamos, além disso, que simbolizava o amor, o romantismo, a ternura e a longevidade, a flor-da-ternura por via desses seus longos cachos em cascata de tom lilás ou roxo suave.
De origem japonesa, deu-lhe, em 1802, o seu identificador, o botânico alemão Carl Ludwig Willdenow (1765–1812), o nome de Glycine floribunda, inserindo a planta no género Glycine; o botânico suíço, Augustin Pyramus de Candolle (1778-1841), reavaliou, porém, a morfologia da planta e colocou-a correctamente no género Wisteria, que fora criado pelo botânico britânico Thomas Nuttall (1786-1859), actualizando o nome para Wisteria floribunda.
Chamou-se-lhe floribunda, por ser abundante em flores. Aliás, era sabido que, em lugares mais frios, ostenta uma floração exuberante e de cor azul-violeta, com grandes cachos pendentes. Essa proclamada rara beleza ornamental fora o que nos seduzira, não ligando muita importância àquele pormenor dos «lugares mais frios», sabendo nós que vivemos aqui em pleno clima de características mediterrâneas. Ver-se-ia.
E viu-se. Foi nossa companhia durante anos, até há pouco, quando nos apercebemos que abusara do seu enorme poder invasor e estava a atabafar por completo a pobre de roseira que lhe crescera ao lado. Ainda por cima, enganara-nos: eram filamentos e mais filamentos no ar à procura de onde se agarrar e flores… nenhumas!
Anos a fio, era a azáfama de cortar filamentos quase todas as semanas, sem alegria vistosa duma flor, quanto mais de um cacho delas, como nos prometera. Era, seguramente glicínia-macho, pensámos. Mas não: as flores são hermafroditas e viemos a saber qual era o problema: estava imatura, dado que precisa, afinal, de 7 a 15 anos (ou até mais) para florir; estava, além disso, em mau sítio, porque carece de, pelo menos, 6 horas de luz solar directa por dia, para acumular energia suficiente para a floração; e também percebemos que, sem uma poda adequada, realizada duas vezes ao ano (no inverno e no verão), a planta gastava toda a energia em crescimento verde, em vez de criar botões florais.
Decidimo-nos, por conseguinte, pela roseira, que – diga-se de passagem – nos parece que até rejubilou, alvoroçada, assim que se viu mais livre. E logo um botanito vermelho quis desabrochar.


Quando, todavia, íamos proceder ao corte final do tronco, a surpresa sobreveio. E assim compreendemos melhor o que se lera:
«Na linguagem das flores, a glicínia anda associada a um afecto profundo, a um amor apaixonado, devido ao modo como a trepadeira se enrola nos suportes»


É que, de facto, a nossa glicínia estava intimamente enlaçada com o principal ramo da roseira. Abraço terno, dir-se-ia, de mais de uma década, momento a momento mutuamente fortalecido. Admirável forma como duas plantas tão diferentes se souberam unir uma à outra, num amplexo de mútua defesa e sustentação.
Escusámo-nos perante a roseira. Explicámos-lhe que ela nos estava a dar agora uma que outra rosa de vez em quando, devido à inveja que a glicínia lhe tinha, ciosa de tudo quanto era espaço disponível, até atirando ao ar os seus tentáculos na ânsia de mais suportes ainda ter.
Consumámos o sacrifício.
Agora resta-nos esperar que, por simpatia póstuma, a glicínia deixe, serenamente, os seus ramos secarem na sebe. Saudá-los-emos como se estivessem vivos e confiamos-lhes agora os ramos da roseira por florir. E que a sua feminil sensualidade passe para o perfume das rosas que hão de vir.



